segunda-feira, agosto 11, 2008

A pegada de uma simpatica ideia II


Aprendemos que falar do meio rural deve ser na dimensão de um lugar longínquo. Neste momento sou um jovem rural, não nasci nestes campos verdes ou nesta pastagem de vacas, mas fui empurrado pelo cruzamento de coisas complexas, somos muitos nesta condição. O rural para nós (filhos da madeira zinco), é esse lugar ausente de uma cidade, onde a vaca e o verde têm uma relação perversa com o homem. Durante os efêmeros anos da adolescência cresci embalado no mito de que onde há vacas e arvores de fruta não há lugar para uma relação obsessiva com a fome ou uma privação emocional. Os campos verdes representavam uma superação de ícones do necessitado cidadão urbano, a necessidade de estar saciado e protegido contra flutuações do metical. A camponesa era em si um símbolo de abundancia, o seu pe descalço, com a enxada carregada no ombro representava aquilo que numa cidade não encontrávamos: a elegância de uma aturada tarefa de arrumador de terra. Pergunto-me às vezes o que terá levado uma geração de filhos de camponeses trocarem uma vaca leiteira no campo por uma red Bull num supermercado? De trocarem a vida de arrumador de terra em Manjacaze para arrumador de carros na baixa da cidade?.
Parece que o cerne de tudo passou a ser para muitos a defesa de um bloco ou de uma viga, ignorando a estaca, que em outras palavras seria comparar o agora com a fase anterior da nossa condição de fazedores de historia. Para isso basta ignorar o mundo rural que alimenta milhões de braços. Os africanos têm uma historia perversa com o seu passado, o futuro chegou com a nossa descoberta dizem os europeus e não temos a mesma coragem para dizer que o futuro já tinha chegado faz séculos “apartir” do momento onde assumimos a nossa condição de seres sociais e produtivos. E nesta condição de falta de coragem perguntamos o que terá desaparecido na elegância de um pe descalço? A narrativa e o humor que caracterizam as estórias contadas à volta da fogueira podem ser substituídos na sua maioria pela telenovela?

Alguns mais esclarecidos dirão que estamos perante o fenômeno da globalização, ignorando que a globalização produz-se no processo de negação de fenômenos de identidade perversa. Porque ai residem às relações do social. A uniformização de relações econômicas e sociais não resulta de forma extrema de um fenômeno a que chamamos globalização, existe um lugar mais exigente dentro da nossa condição humana que forçosamente obriga-nos a codificar nossas relações sociais e econômicas de uma forma critica por forma a garantir a nossa própria existência. O rural representa isso, esse lugar onde de uma forma critica conseguiu resistir a esta uniformização de relações sociais e econômicas de algumas pessoas.
O campo muda em paralelo com a cidade, por isso o discurso da globalização revela-se contraproducente quando queremos discutir o desenvolvimento rural, porque partimos de um principio de que o campo esta atrasado, o rural só existe porque o desenvolvimento deve chegar La, ignorando o lugar critico que o campo poder ter para compreender os fenômenos de uma identidade perversa. Quando escutamos a narrativa dos que do campo vivem, a colheita pode marcar o inicio de um novo ciclo de vida que para muitos não reflecte nada porque ignora o click no "Save as". A nossa revolução verde é isso. Amar o campo pela esperteza de um bom amante urbano onde importa a troca de um mito por uma sonda de sentidos apurados: a troca do mito do sumo de “Canhu” para aumentar a virilidade por uma red Bull.

5 comentários:

Ivone Soares disse...

Ilustre, o enterro do dr David Aloni será no dia3/9/08. As 13.30H velório na sala nobre do Municipio de maputo, às 15:30h enterro no cemitério de Lhanguene.

Sibia disse...

Fala Doutor,
Faz uns tempos que li MALUNGATE, de Albino Magaia, então a minha análise comparativa deve ter duas décadas de defasagem e se levarmos em conta a capacidade crítica muito mais tempo. Não vou negar que a um jovem urbano o campo é fascinante porque somos TURISTAS, querendo ou não - efémeros ou perenes. Não acordamos com o canto do galo e nem nos curvamos para arrumar a terra. Nunca o fiz mas imagino o que deve ser uma jornada nessas condições, então não me surpreende que os menos aptos ou mais sagazes, tratem de se ver livres de tal lida. Uns viram engenheiros e criam meios de se alcançarem os mesmos objetivos de maneira menos penosa e outros, encontram outras ocupações que os façam esquecer a "estória", porque história são lembranças que dificilmente são apagadas. No entanto é salutar ver / saber que se têm presente a devida importância que o meio rural exerce sobre o TODO.
Acabei de ser solicitado num outro departamento e terei que interromper antes da metade a colocação que pretendia fazer. mas as linhas gerais já estão dadas. O pessoal "foge" não do campo, mas do trabaalho árduo, afinal a maior lei da natureza, diz-se por aí que é, a lei do menor esforço.

Parabéns pelo agradável espaço cibernético.
Txova.... xita duma.

amosse macamo disse...

caro Matine e vai o grande questionamento, o que faz com que este jovem nascido no campo, uma vez engenheiro recusa-se a voltar para o mesmo? me parece haver um ensinamento superior que o faz acreditar que o campo não é e jamais será aquele lugar mágico em que ele nasceu. mas porque este ensinamento supostamente superior não o é, quando a vida aperta não pela falta do tostão mágico, este mesmo engenhiero ensaia uma volta ao mesmo campo, para pedir protecção dos seus e um segundo questionamento: é ou não, benéfico este campo? e se é porque fugimos dele? vale a pena aqui lembrar o José Mucavele, quando diz "hi dloki utive la valungu hi lheka bedjua la kokwane", como quem diz, ocidentalizamo-nos e rimo-nos da nossa tradição" o que será o verde senão nós, o urbano, não passa de um empréstimo a pagar com mora.....

Anónimo disse...

caros colegas! nao pude interagir com voces, a tarefa de estimular o sentido critico fez-se refem da producao do conhecimento reformador, isto no sentido de quem fartou-se esperar. mas de volta, so posso rogar que nao abandonem este exercicio de interacao critica, faz-me falta. ate breve.

j.matine

Nyabetse, Tatinguwaku disse...

Onde andas Jorge, não sumas assim! Mana Melita