sexta-feira, abril 25, 2008

Ouri pota: ndana ndzoleeeee. Chapa100: ndzoleeee yanga

Hoje o motorista deste chapa100 completa mais um ano de vida. A idade tem seu peso, como qualquer pedaço de coisas úteis, a pedra por exemplo. Eu, tenho o peso dos sentidos difíceis, tão exímios para amar e perscruta-los como o búzio de um mar vermelho. E se o mar é isso então em plena constante amo a vida.
A idade tem o peso da pedra. De um rochedo carinhoso e forte para contemplar as ondas. Engana-se quem da pedra esquiva-se, não há como fugir dela, só podemos ampara-la. Nesta quase agradável noite, numa cidade tranquila e invadida pelo silêncio de um ventre africano, contemplo a sua opulência num sarau melancólico. O ventre devia ter sido a lua que na pedra casou, com olhos grandes de quem admira a exuberancia da vida marinha e que na procura do aroma, de uma orquidea, descobriu as montanhas de rubi.
Os caminhos fazem-se moendo verbos, mesmo quando andamos tão certos de um lugar que conhecemos. Por isso festejamos a idade, como a montanha de rubi, porque estamos cegos no verbo que conduziu-nos a pedra. A minha idade pesa por isso, mas devia ser mais leve, para no mar balouçar e na pedra esquivar. Não, não foi assim. Foi preciso ampara-la, com o peso dos caminhos percorridos e aprender amar a sua opulência. Da idade não se esquiva, ampara-se como o ventre africano, de olhos grandes, que na pedra do ex-miguel bombarda deu a luz. E nasci a 25 de Abril.

quarta-feira, abril 16, 2008

terça-feira, abril 15, 2008

os habitantes da cidade 6

1- Longe do blogue o mundo não para, afinal a literatura nha mocambicana mostra isso, o celular vai se mocambicanizando, enquanto Mugabe estuda a democracia, e devia estudar mesmo, outros dizem que mal aprendeu dos outros, todos nós sabemos. E a blogues fera activa perde o Eugénio, afinal tudo é uma questão de esperar pelo ano novo, enquanto uns ficam mais velhos, outros renascem. A vida é um evangelho, afinal" Everyone has the power for greatness...

2- A mania do mundo, esta no mundo. Isso mesmo. O mundo tem mania porque existe um lugar perverso que se chama mundo. Tão redondo como a nossa própria existência. Não é uma conclusão, são perguntas ainda mal formuladas. Hoje, depois de uma jornada académica, fui saborear o sol no parque. Quando aqui faz sol, depois de prolongado tédio e frio, o mundo tem outra mania. Fica mais rebelde na forma redonda de viver dos seus habitantes. Sentei-me na primeira sombra que encontrei, porque o território do sol estava ocupado, com uma multidão, na sua maioria feminina, bronzeando-se. Como dizia o poeta-critico Marcelino na aemo, as mulheres são como lulas, no sol brilham e na água...

Na verdade o dia sentou-se por cima do meu olho. O cansaço. Passei quatro horas moderando uma míni conferência académica, entre estudantes vindos da Coreia , Franca, Canada, Rússia e Republica Checa. Gostaria de ter certeza de que a conferência não foi um two man show, um “se-calhar-entendi” entre os participantes, o moderador e tradutor. Eu sempre pensei que tivesse nascido num chamanculo errado nesta coisa de línguas, mas hoje posso dizer que o mundo nasceu no lugar errado. O mundo devia ter nascido no chamanculo, o pulmão do mundo não seria a amazónia mas o kapekape, ex-centro associativos dos negros seria a biblioteca alexandrina, o mercado do Diamantino seria o wall street, o Vaticano seria a nossa missão são josé no chamanculo c, o cinema olympia a Meca, a rua dos irmãos Roby o Titicaca, a avenida do trabalho o serengeti e como bons chamanculianos podíamos emprestar o nosso New Orleans-french quarter ao bairro de xipamanine e o taj mahal ao bairro da mafalala, assim a língua do chamanculo seria a biblia de boas coisas para entender o mundo... Mas não, deus quis fazer das suas, e assim nasceu este mundo redondo.

Mas é a língua que torna o mundo redondo. Não posso culpar a deus. Nesta sombra que protege o corpo do sol e não a imaginação que percorre o mundo, vou respirando na fadiga e na mania do mundo. De quando em vez, distraio-me, nas mulheres que se untam com creme, imagino que o sol nunca viu um animal tão teimoso como o homem. A Cleópatra preferiu leite e deu no-que-deu.

terça-feira, abril 08, 2008

la famba bicha 31 - perguntar para perguntar

Os dealers da adrenalina

Talvez devia ser o título do próximo texto, com uma produção clandestina, num teatro amador. Sim afinal, tudo faz-se às escondidas, principalmente quando se trata de abordar alguns tabus. Mas os dealers da adrenalina não querem falar do tabu, não precisam porque isso exige um esforço intelectual que muitos dealers não tem.

Na infância falávamos de fofoqueiros, afinal a mercadoria era a língua e o olho de tudo ver e falar. Uma espécie de câmara mutante, num mundo onde tudo permuta entre prazeres de uma boa conversa e uma vontade para excitar o outro. O ouvido do homem era fraco, não a carne, o corpo no seu todo. A orelha e o lábio, eram companheiros da rua, de ver e ouvir num aparato de segredos. Mas será que era o aparato em si, ou a palavra é que nunca suportou uma prisão?

Mas o tempo encarregou-se de tudo. O homem já não é a prisão da palavra. E a palavra já não brinca às escondidas, não há mais escuro no corpo para esconder o verbo. Onde a língua e o olho dormitavam no escuro, nasceu outra mercadoria: a emoção. Hoje não temos mais fofoqueiros para entreter a palavra, mas dealers cujo trabalho é produzir adrenalina em massa. Um fordismo que as vezes transcende a mecânica do corpo e da razao.

Não serão o dzukuta e o pandza, os dealers da adrenalina? Talvez. E os forwardores do video do ziqo? Os agitadores da mao invisivel? Os que querem o povo no poder? Os que vivem do combate a pobreza absoluta? Não serão tambem os bloguistas dealers da adrenalina? Talvez.

sexta-feira, abril 04, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

A andorinha do Mugabe 3


1- Escrevi aqui e aqui sobre o Mugabe. Continuo pensando na andorinha do Mugabe, e naqueles que interpretaram a minha opinião como uma diabilização ao Mugabe. Hoje somos obrigados a assistir o que todos queriam ver: a forma precipitada para “inventar” uma formula de pensar numa África integrada sem a fragmentar. Assim como aqueles que adoram a andorinha e sem amar a chuva. A meteorologia dos sentidos, penso eu.

2- A meteorologia dos sentidos parece conduzir-nos para um abismo. Transformou algumas intenções de exercício crítico numa escolha entre a diabolização do Mugabe e o recurso ao nacionalismo. As escolhas representam aquilo que menos sabemos fazer neste continente: criar aquilo que Karl W. Deutsch chamou de security community. Este conceito foi aquele que inspirou o acordo de Incomati, o acordo de não agressão assinado entre Samora Machel e o regime do apartheid. Trocar a baioneta pelo diálogo político, e não a troca de baionetas de uma guerrilha em maçãs de um farmeiro bóer.

3- A história repete-se. Não no Zimbabwe, mas no dia-a-dia dos africanos, porque este continente produziu tanto líder que representa(va) o diabo revestido num discurso nacionalista, desde o Bokassa ate ao Idi Amin. O que intriga neste momento é perceber como Mugabe pretende salvar o Zimbabwe, e para isso não precisamos do diabo ou de um nacionalismo que assenta em apelos emocionais, mas de um líder inteligente, pragmático, que possa promover o diálogo entre os elementos radicais de uma oposição farta do regime de mugabe e os elementos mais racionais dentro da zanu-pf.

3 - Para um continente que esta habituado a revoluções ao estilo golpe de estado, não terá chegado a altura de assistirmos a uma nova perestroika no Zimbabwe? Porque só com uma perestroika pode-se garantir que o exercito no Zimbabwe (onde estão os mais radicais elementos da zanu-pf) não tome o poder. Na experiencia da repercursão que a perestroika de Mikhail Gorbachev teve nos paises vizinhos e no bloco sovietico, podemos vir a assistir tambem num futuro muito proximo o impacto da perestroika zimbabweana em alguns paises vizinhos na região.

4 - Agora caros bloguistas imaginem que neste momento a vossa situação social e económica seja esta: tens 84 anos, casada/o com um(a) mulher/Homem 30 ou 40 anos mais jovem do que tu, tens dois filhos menores, governas um pais em crise económica, os teus amigos vem bater a porta para exigir favores, a única pessoa que tem a maior possibilidade de tomar o teu poder não reconhece os teus compromissos com amigos e tua família, os teus vizinhos estão a espera que a morte te visite para distribuírem a tua herança entre eles, e o mundo pensa que estas velho demais enquanto a tua família quer-te poderoso e vigoroso por muito mais tempo, mas a tua inteligência diz que não podes planear as coisas da tua vida privada e publica, a longo prazo, porque não poderás ter vida para ver o resultado.

Usando a meteorologia de sentidos, como poderas resolver este maka da tua vida?

quarta-feira, março 26, 2008

la famba bicha 30

 Finalmente aconteceu. A política tem seu preço, o paiol também. O ministro da defesa foi exonerado, aqui termina a carreira política de um homem e abre-se um novo precedente na nossa história, para detentores de cargos publicos e politicos. Pena tê-lo feito tarde, porque a esta altura a honra e o bom nome do antigo ministro foi por agua-abaixo, deixou passar uma oportunidade única para salvar o que lhe restava de prestigio, na sua longa carreira militar e politica. Na altura logo depois das operações de socorro as populações vitimas da explosão do paiol devia ter-se demitido.

Mas fica aqui patente um caso que vai alimentar muitas páginas, quando se escrever a história contemporânea de Moçambique. Só que este ex-ministro claramente ficou preso no cargo porque não queria sair sozinho. Entre a responsabilidade política e a capacidade de gestao tecnico-militar do exército, há muita gente com culpa no cartório pela explosão do paiol, desde as altas chefias militares no comando do exército ate as chefias políticas no ministério da defesa.

As altas chefias militares saíram semana passada, em grande estilo, afinal estavam a cumprir um mandato de paz e reconciliação, com a mancha do paiol que ceifou vidas, disseram-nos que saiem com a missao cumprida. Só quem esteve longe dos acontecimentos não viu como o exército reagiu mal na gestão dos acontecimentos pos-explosao do paiol e a posterior acção de destruição de material bélico absoleto em Moamba.
Mas fica aqui uma grande lição aos novos detentores de cargos publicos e politicos, tudo tem seu preço, quer no dumba-nengue ou no supermercado.

foto:EPA

quinta-feira, março 20, 2008

os habitantes da cidade 9


A poesia sempre foi uma amante de revolucionários. Desde os mais novos ate aos mais velhos. Quem não ama a poesia, nunca poderá amar a solidão e a beleza da coisas, por exemplo o lugar das arvores e o intimo de uma anca. A revolução serve a isso, transformar os amores velhos em novos. Dizem que o maior sacrifício no mundo é escrever poesia, aquela boa poesia, para homens desarmados e desprotegidos pela ordem natural das coisas.

O meu amigo poeta e investigador Chagas Levene publicou “tatuagens de estrelas”. Com Chagas aprendi sobre as feições da leitura, o prazer de uma conversa intelectualmente saudável, a viagem pelos livros na boleia de uma loucura que chocalhava a porção restante de um livro ainda por escrever, encabulado numa taça de vinho. Veja aqui alguns textos e aqui algumas crónicas do seu trabalho de campo. E o tempo voltara, tem a mania da poesia

terça-feira, março 18, 2008

comentarios e virus

Caros bloguistas e  leitores, tem surgido nestas ultimas postagens deste blog comentarios em ingles. por  favor nao click nesses comentarios, ignora-os porque sao virus que pode danificar o vosso computador. obrigado chapa100

terça-feira, março 11, 2008

la famba bicha 29 - o crime II

O link em referencia no primeiro paragrafo deste post mostra os vários desafios institucionais que este ministério enfrenta, sem contar com varios outros que não cabem num post deste blogue. Mas importa chamar atenção para alguns pontos que gostaria, nesta pequena opiniao, de adicionar. Parece que a questão da visibilidade da policia é um ponto fulcral para devolver o sentimento de segurança para os citadinos de Maputo. Esta visibilidade implica maior patrulhamento em zonas ou locais onde é mais provável a prática de crimes, pegando nos estudos preliminares sobre os linchamentos e outros relatorios sobre práticas criminais pode-se mapear essas zonas.

Imagino que, para algumas pessoas, maior patrulhamento implica aumentar o efectivo e meios circulantes para a polícia. Não estão enganados. Mas neste momento o desafio operacional em relação ao aumento da visibilidade da polícia, com o patrulhamento e em particular nos bairros perifericos, implica ter a coragem para reformular o programa de policiamento comunitário vulgo “polícia comunitária”. Sobre os pecados da polícia comunitária escrevi o ano passado no mocambiqueonline (ver os meus elos). Mas vou mostar, com um pequeno exemplo, alguns atentados a razão que a priori mostram os pecados deste projecto e não vou tocar nos argumentos que justificam a sua implementação, tão problematicos como o argumento que acompanhou aquela iniciativa de distribuir apitos aos moradores no bairro de Chamanculo para estancar assaltos as residencias.
Vamos olhar para o problema da criminalidade em alguns bairros periféricos, muitos deles retractados em várias orgãos de informação e estudos sobre a criminalidade em Maputo. Alguns entrevistados fazem referência para a exploração de casas de pastos vulgo barracas ate as altas horas da noites, onde regista-se a prática de prostituição, o consumo de estupefacientes e excessivo consumo de álcool, particularmente entre adolescentes e jovens. Para os entrevistados este tem sido o incentivo para a ocorrência dos chamados crime de diversão, que muitas vezes resultam em homicídios e pertubação da ordem publica. A experiencia mostra que os jovens destacados para policiamento comunitário, não tem competência para intervir ou exercer actividade inspectiva e muita menos competência para fiscalizar a actividade administrativa de alguns locais de diversão. Isto é, impedir que a barraca senta-baixo funcione ate altas horas da noite ou exigir a proibição de venda de álcool e tabaco a menores de 18 anos.
Com este exercício pretendo mostrar que a questão de segurança pública é complexa e requer um desafio bem mais ambicioso em termos de reformas. Com o exemplo acima das barracas quis mostrar que a visibilidade da policia só é eficiente se acompanhada de iniciativas integradas tais como, 1) propor legislacão ou regulamentos sobre a exploração dos espaços de diversão e ter disponível uma actividade inspectiva conjunta entre a PRM e a policia municipal no âmbito das suas competências territoriais e de actividades previstas na lei para fiscalizar a actividade administrativa de alguns locais de diversão, 2) Juntar a estas, outras entidades ligadas as autarquias ou governos locais que tenham competências específicas para velar pela ordem pública em matéria de aplicar coimas, prevenção e apoio a pessoas carentes ou envolvidas em actividades de risco.
Agora voltamos a estaca zero, esforço ou preocupação? sim estamos perante um problema sério. culpar so a policia não ajuda a ninguem. A policia pode estar a ser vitima dos muitos atentados a razão que pululam na nossa esfera publica. Com tempo, estamos a perceber que a policia é o elo mais fraco, de um conjunto de coisas ausentes na discussao da coisa publica.

segunda-feira, março 10, 2008

la famba bicha 28 - o crime I

Escrevi aqui o ano passado sobre o que pensava sobre a situação do crime em Moçambique principalmente no grande Maputo. O pensamento na altura, estava mais virado para a responsabilidade política do ministério de tutela em relação a politicas, estratégias, projectos e planos para conter a onda de criminalidade que dava a impressão de ter aumentado numa proporção assustadora. Continuo pensando que faltam ainda respostas políticas, programáticas visíveis para poder avaliar o esforço dos quadros superiores em estudar e prevenir o crime.

Estudar a natureza e as manifestações do crime não é tarefa fácil, existe ciência para isso. A ciência que estuda o crime não visa produzir respostas para purificar ou proteger por completo a sociedade de delinquentes. Mas neste post não pretendo falar da ciência do crime, não tenho competência para isso apesar de na unidade onde trabalho termos uma unidade de pesquisa aplicada, onde varias vezes colaboramos com varias instituições ligadas ao estudo crime e delinquência juvenil.

Li no jornal notícia que a polícia destacou uma unidade composta por elementos vindos de varias unidades ou instituições do ministério do interior, para estudar os linchamentos, na região centro do pais. De forma geral podíamos dizer que estamos perante um indicador que mostra a preocupação política e institucional para com este tipo de crime. Será que isso basta? Qual seria a magica formula para perceber quando é que este ministério esta preocupado e quando é que esta se esforçando?

Quando o crime atinge os níveis insustentáveis e intoleráveis em termos de níveis de aceitação e negociação da percepção de estar seguro e protegido na sociedade, a diferença entre o esforço e a preocupação trás pouco ou nada de novo, pelo menos numa sociedade onde o impacto económico e social do pequeno crime tem efeito contaminador nas relações de poder e reprodução social. Estamos numa situação em que o criminoso não tem rosto, é tão anónimo como quem tem o mandato e o dever de o combater.

O professor carlos serra já publicou bastante e não o suficiente sobre os linchamentos. E muitos outros estudiosos e curiosos, incluindo as vitimas do crime. Aqui não podem acusar as forcas vivas da sociedade de estarem de braços cruzados, alguns de forma apressada e outros com uma atitude mais cuidadosa vão mostrando que podem contribuir para uma maior visibilidade do crime e dos seus contornos sociais.

domingo, março 09, 2008

O chapa100 fica varias vezes silencioso. Desta vez foi por uma manifestação de dor e luto. Só não sei se a manifestação de luto deve ser pública, mas a blogsfera é uma comunidade de familia, amigos, vizinhos, patriotas, desterrados, desconhecidos e virtuais cidadãos. Um bloguista, amigo de uma infancia presente, um jornalista cultural, agora feito um emigrante, como eu e muitos, que nas noites de insonia conversamos sobre o nosso pais tão distante na saudade e tão presente na memoria. O meu luto, é pelo ouri, pela perda do pai.

segunda-feira, março 03, 2008

the social fabric e uma andorinha 3



Parece ser comum hoje comentar que o chapa 100 governa nossas vidas. E não estamos enganados, segundo a percepção popular. Por muito tempo alguns actores políticos da praça, andaram a criar governos paralelos e governos sombra. Fizeram-nos crer que tinham mandato político para tal ousadia. Alguns justificaram que era um experiencia comum no mundo, em democracias mais adultas. Não estavam enganados.

Mas esqueceram-se de perguntar se tinham mandado político-social, entendido como popular, para tamanha ousadia. O chapa 100 mostrou que tem um capital político-social de fazer tremer qualquer partido no governo ou na oposição. Fazer estremecer um pais não é uma questão de ousadia, é de muita força social que supera o capital político de muitos. O sociólogo Carlos Serra chamou este capital político-social do chapa 100 de um sismo social.

Não pretendo aqui dar um cunho político ao chapa 100, sob pena de criar governos paralelos nas estradas moçambicanas. Mas interessa-me, este paralelismo que o chapa 100 tem com o nosso ambiente político e seus actores. E não são só os partidos políticos com seus governos paralelos e sombra que são desafiados pelo capital político-social do chapa 100. E a media? Esta declarou-se o quarto poder. O mandato para estabelecer esse quarto poder foi buscar na experiencia do mundo, em democracias mais adultas.

Mas em democracia menos adulta, o poder assenta em outros actores. Menos experientes mas ousados, bastante frágeis em relação a concepção que temos de um estado funcional, mas aparatosos no controle das relações sociais, políticas e económicas do cidadão no dia-a-dia. O poder do chapa 100 assenta na miniatura das relacoes formais do quotidiano quando existe uma percepcao generalizada da ineficiencia das instituicoes formais, o que particularmente cria incentivo para alguns actores especializados em relações sociais, económicas e politicas informais. E os ultimos desenvolvimentos mostram que existem vários governos paralelos e com poderes que disputam o controle pela dimensão normativa do exercicio de poder no estado, isto é, na busca de legitimidade para o controle das relações sociais, economicas e politicas na nossa sociedade. Mas importa aqui questionar porque que alguns segmentos da nossa sociedade não se querem transformar num poder que aposta no incentivo ao crescimento/fortalecimento de instituições formais e estruturais na sociedade? E será que o nosso sistema democratico menos adulto permite isso?

domingo, março 02, 2008

amor de zinco 8

cá fora
o vento sopra
a lua crepita
e o corpo
engrandece

leva
minha razão
para
outra margem

mas
o vento
não só
sopra
a leste

a lua
não so crepita
e o meu
corpo
não só engrandece

tudo
muda

adquire outra face

mas dentro
tudo
permanece
bombeia
palpita
e ama
em plena
constante.



in jorge matine - "abutres do amor", Ed.Moura Pinto, Porto, 1999

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

a vida sem mais 3


Apresento neste espaço de coragem dois textos que pude ler na página do jornal noticias reservada a opinião/cartas de leitores, os textos correspondem a contextos diferentes e apelam a diferentes destinatarios. O que chamou-me atenção nestes dois textos é o apelo a cultura juridica e a purificacao, fugindo ao apelo emocional que tem caracterizado a maioria das intervenções sobre o cidadão indignado.


terça-feira, fevereiro 26, 2008

(des)mamar um pais 1

O sociólogo e bloguista Elísio Macamo faz uma incursão de tirar o fôlego, pela brilhante disposição de ideias sobre o que ele pensa dos desafios de Moçambique em relação a indústria desenvolvimento. Em muitos círculos este é um assunto polémico, não por causa da sua complexidade, mas devidos a vários entendimentos do mesmo. Elísio Macamo numa das suas dissertações escreve que a corrupção transformou-se “num instrumento de trivialisação da nossa política, mas também numa cortina que não nos permite ver os problemas sérios que a dependência do auxílio externo está a criar no nosso seio”. Um argumento polémico, não pela ênfase temático, mas pelo chamamento que faz a nossa reflexão.

Este argumento revela-se polémico quando somos obrigados a “inspeccionar” as nossas crenças e os vários discursos sobre a agenda de desenvolvimento para Moçambique. Mas ouvi como sempre nos vários foruns que estamos perante um momento de coragem do Elísio em desafiar nossas crenças e achei problemático o entendimento que temos de homens corajosos. Acredito em alguns atributos da coragem, mas o facto de que ate para reflectirmos sobre o nosso eu-individuo como primeiro exercício de cidadania, precisamos buscar “coragem”, revela-se problematico. Que poço é esse que só oferta agua para alguns previlegiados?

Ao reflectir sobre a ideia/entendimento do desenvolvimento, que só é valida quando pode devolver aos moçambicanos um pensamento reflexivo sobre as suas opções politicas e sociais, Elísio devolve a “bola” para um debate interessante sobre os limites e os contornos da liberdade. A liberdade no caso dos Moçambicanos, no meu entendimento, seria o entendimento de que existem coisas possíveis, no âmbito político, social, económico e cultural. Onde as coisas possíveis devem estar ligadas ao pensamento de que temos que ser capaz de fazer a nossa própria historia.

Fazer a nossa própria historia, não significa um desligamento com “o mundo de boa vontade” e o sentido regulador que as relações com o mundo impõem na nossa existência como sociedade e como pais. Significaria devolver a autonomia política e moral aos moçambicanos de modo a definirem os critérios e o entendimento que temos do desenvolvimento e do rumo que queremos dar a nossa história. Aqui acredito que os atributos da coragem não são suficientes, precisamos de desenvolver uma cultura crítica instrumental que permite identificar ou preservar espaços no nosso sistema político para a articulação de interesses e que permite fundamentar uma concepção comum de desenvolvimento sem intervenção de uma concepção exterior ou superior ao raciocínio dos cidadãos envolvidos.

E porque tudo é uma questão de coragem vou deixar aqui ficar nesta rubrica a minha pequena coragem.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

the social fabric e uma andonrinha 2


“em quantas partes se vive um grito
Em quantos corações se parte uma terra
Em quantos olhos se come o sol
E em quantos pães se mata um sonho?”1.

Parece que a nossa vida de homens pacíficos mudou. Não sei quem foi que disse que nossa indignação para com a injustiça, a incerteza, a incompreensão, o obvio, o medo, a mudança, o crescimento, a pobreza, a riqueza, a tirania, a democracia, o beijo, o linchamento, nunca existiu. E quem tem a memória mais lúcida, vai explicar-nos sobre tempos pacíficos e menos violentos da nossa história, onde o realismo de um passado menos documentado e violento pode casamentar com nossas paixões inquestionáveis para com a paz e a moda de santos apertadores de cinto. O mundo mudou, e como obvio mudou a nossa percepção de homens fazedores de história.

Quem não se da conta disso, esta condenado no drama de um mundo real que não permite estar perto daquilo que pode confiar: o governo, a família, o estado e suas instituições. O estado está mais para uma instituição telenovelada, ele institucionaliza-se em personagens coreografadas num mundo de apelos a emoção e afecto que não encontramos no sofá ou na esteira da nossa casa. Por vezes reforça o realismo com encenações de apelo ao louvor, a celebração de conquistas, como se a sua existência fosse suficientemente inquestionável, afinal ser cidadão é universal, ser pobre também. A desigualdade é isso, legitima a existência do estado, onde o governo existe como aquele que esta para contar uma mesma história, segundo duas perspectiva separadas: nós e o povo.

Não é pessimismo. Não há lugar para isso. Porque ser pessimista num pais onde todos têm respostas? Fazer sugestões pode ser fatal, morres com uma bala de borracha requintada de chumbo. A resposta já a encontras: devolver a indignação, ate ao último minuto, para aqueles que tem esse direito, de recolher nossas indignações e estuda-las como o geólogo que na pedra não se apaixona, só no murro que não se humaniza. De que adianta procurar respostas num pais que não permite sugestões?

Mas a resposta encontrada não satisfaz. Afinal qual das duas perspectivas da mesma historia permite devolver a indignação onde ela sempre pertenceu? A indignação sempre pertenceu aos homens, o mundanismo retirou-nos isso, porque a sugestão de que todos podemos indignar-nos pareceu-lhes caricata. As manifestações resultam dessa indignação, com a nossa postura de negar sugestões “Em quantas partes?”

1 Excertos do poema “Em quantas partes?” de José Craveirinha - Colectanea breve de literatura Mocambicana, edicao Identidades, Porto, 2000

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

The social fabric e uma andorinha 1



Durante muito tempo coleccionei uma data de coisas semi-úteis na minha vida de emigrante. Apesar de nunca considerar-me um emigrante, porque ser estrangeiro faz parte da vida. Emigrar nao doí, faz da nossa vida um pequeno filme de incomensurável respeito. Quando rebusco a infância, existem lugares e pessoas que auto-ficcionam, uma moldura de coisas passadas. A beleza esta ai, no pequeno mundo de memórias, que no fim do dia, enamora-se no mundo que emigra constantemente em nós.

Mas será que isso basta? Pormenor importante esse de reconhecer os limites do que consideramos excelente. Redondamente podemos dizer que somos homens de um pais redondo, porque como emigrantes giramos ao ritmo de uma bola, impressionados pela larga presença de terra, prazer, lugares, e uma atracão por cultivar coisas praticáveis e ou apenas que fascinam. E será que isso basta?

Não sei onde buscar palavras de sol e chuva. Sim afinal, tudo que no sol brilha na chuva molha. Não é um verso, mas um pequeno pormenor de um emigrante. O sol não é sinónimo de calor, mas de uma energia feminina, representa o que é colorido, pseudo-seduzido, e simbolicamente sensual e ingénuo. Como emigrante tenho esse direito, de feminizar a vida.
A chuva, surge como a nossa primeira conversa com o mundo. Chove como ideias de um pensamento discreto. Uma chuva liricamente livre, assim posso caracterizar essa vontade de sair molhado. Quando todos correm a procura de abrigo, o emigrante deixa-se pingar, molhar sua ténue vontade de ser sempre o menos significativo, para os que da chuva abrigam-se.

E as pequenas coisas úteis de um emigrante surgem como vocábulos de uma língua que menos amamos. Aprende-se a amar aos bocados, mil coisas de uma vez só, porque o prazer e o instinto aprumam-se. Como um telescópio que procura e perscruta um cometa desarmado, substancialmente livre de um universo de segredo humano e outro divino. Então ser estrangeiro é isso, nunca um emigrante, porque o mundo é redondo. A terra emigra, nós ficamos em sentido como guardiões de um universo poético, mal amado, mas resistente numa memória de criança que auto-ficciona-se, como um adulto prenhe de saudades.

Mas será que isso basta?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

a vida sem mais 2


Segundo um dos jornais Fax da praça, o conselho municipal veio anunciar que 2 empresas privadas (portuguesa e sul africana) ganharam o concurso para a recolha do lixo no municipio de Maputo. Finalmente, vamos ter uma cidade limpa e cheirosa. Só que até agora ninguêm quer disponilizar os números envolvidos nesta operação. Os numeros dizem muito e como dizem. E neste municipio de Maputo, ha gente que gosta de brincar com os números.
foto de Ouri pota
o sociologo elisio macamo no seu blog postou alguns textos que tocam a questao da corrupcao e o desenvolvimento do nosso pais. E porque andava ocupado com as minhas ferias e pesquisas, nao pude participar activamente no debate. Prometo voltar a este assunto, na tese de que os problemas de desenvolvimento em mocambique resultam muito mais da fraca capacidade interna de formular melhor o nosso proprio entendimento sobre o desenvolvimento. O ataque a industria de desenvolvimento tornou-se um mero exercicio interno para negar a nossa responsabilidade nacional para com os problemas sociais e economicos.
Deixo aqui uma referencia ao artigo do jornalista J. Langa sobre o estado generoso.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

os habitantes da cidade 9


- Comadre! Viste o que aconteceu?
- Não vi, diz lá comadre o que aconteceu!
- As crianças, comadres. Essas nossas crianças, não tem juízo comadre?
- O que aconteceu comadre que já estou a ficar nervosa?
- Elas estão a manifestar contra o governo?
- Jura!
- Sim, comadre!
- Qual governo? O nosso governo?
- Sim, o nosso!
- Eish! Já não há respeito, comadre! Nada, juro!
- Sim, não há mesmo respeito, damos de comer e beber comadre, e ainda manifestam!
- E logo contra o governo, o nosso governo comadre!
- O nosso governo comadre, não merece isso!
- Mas eram crianças de quem? As mães devem ser chamadas atenção.
- Eram crianças do povo! Comadre, as mães nem estavam lá.
- Estavam aonde?
- Comadre afinal não sabe? Elas também, estão a manifestar
- Jura?
- Sim comadre! Elas, as crianças e o povo.
- Então já não há respeito! até as crianças e o povo?
- Por isso comadre! Por isso!
- Coitado do governo!
-...eish comadre...governo só!
- Ta a ver a tua filha comadre ai na rua a manifestar, contra o governo?
- Nada! juro...minha filha? A Nyeleti? Essa tem juízo comadre.
- A minha Joana também, tem juízo, nunca chumbou...
- E a Nyelete comadre! sempre dispensa.
-...hm
- Ah sim, saiu ao pai...o Alberto tem juízo, apercebi-me disso logo que ele ia ser alguêm quando ainda namoravamos...
- E não falhaste comadre, hoje ele é ministro, e até fica-lhe bem aquele cargo...
- Fica-lhe bem...mas comadre governar aqui neste paĺs, nao é fácil...
- Mas comadre o que interessa mesmo é que estão bem...
- Ah isso não tenho razões de queixa...E o teu João comadre, pensa mesmo que ali na oposição vai ter cargo? Com aquela gente ali?
- Comadre tu conheces o João, ele quando mete uma coisa na cabeça ninguem lhe desvia...sabes como são as pessoas do sul comadre.
- Mas comadre, afinal você não tem força? Pensas que Alberto é ministro hoje porque?
- Comadre pensas que não tentei? Tentei toda minha vida, cansei-me, até o burro cansa-se de puxar a carga...
- Mas somos mulheres ou não comadre!? As criancas podem manifestar mas nós mulheres lutamos comadre, por tudo: familia, filhos, marido, por tudo comadre.
- E pensas comadre que não lutei!? Sou a única em casa que luta por este governo, as crianças manifestaram-se, o pai também, eu fui a única que vim logo que pude, para avisar a comadre...
- Avisar o que comadre!?
- Para a comadre não mandar tirar os chapas da garragem para a rua, senão vão ser queimados e apedrejados pelas crianças...comadre!
- vocé é mesmo amiga comadre...pena que o compadre João e Alberto não se entendam.
- Muita pena comadre!
- Hm...