terça-feira, setembro 01, 2009

para isso eu vou votar

sera que no manifesto eleitoral deste ano vamos ter/ver algo sobre a reducao dos impostos de quem produz? alargar a base tributaria nao deve ser a tarefa numero 1 de quem pretende governar, mas incentivar quem paga promovendo transparencia e contencao de gastos na despesa publicas.

quarta-feira, março 11, 2009

ares romanescos I

1- Outubro pode ser o mês de ausências. A palavra quotidiana ausentou-se, em férias prolongadas como o país que esquece suas fronteiras. A fronteira devia ser o fim das coisas que nosfazem Moçambicanos. Escutei isso de um amigo. Estávamos todos entretidos no cansaço, na longa distancia que separa a vida rural da vida urbana. O vulcano era o começo de tudo e a paragem do sonho. Entre a voz que grita por novos passageiros e o silencio da bacia cheia de bolinhos, existe uma odisséia que se avizinha. As viagens nunca deviam ser assim. Murmura quem sempre viajou no sonho de um lugar por chegar. Porque a vida de muitos no vulcano desmama-se na ansiedade de um minibus que nunca enche, como o balão que sopramos no limiar de um ataque de asma: engrandece os olhos e enfraquece o corpo.
2 - e Março, delega-se uma vontade de refazer um personagem. Varias ousadias foram testadas. A mais interessante seria de um artista inseguro que se transforma numa estrela. E porque o enredo não foge a descrença do mundo, morre linchado num bairro da capital. Dura 34 segundos para um actor se tornar um objecto de estudo social, morre o corpo, mas ressuscita a gênese de um estilo: o assunto. O governo pega para fazer um seminário nacional, o cientista despega para fazer não apenas uma, mas duas biografias sobre ele. A ideia de estado reinventa-se na descrença das gentes que acreditam que o mundo mudou. Mas o suspense esta no partido que reclama novo nascimento, o linchamento reencarna um país decadente, gordo e apaixonado, mas com aparência de doente. A decisão de matar esta logo no início da e(hi)stória.

3 - Por alguns segundos pensei na Beira. afinal para onde sopra o vento?. ja filmaram os outros: o "vento sopra de norte". sera?

quinta-feira, outubro 30, 2008

(des)mamar um pais II

Diz-se que a sorte foge. Tem pernas mais compridas que a vida de muita gente. Será possível? Alguns homens dizem que sim. Um paradoxo ate mesmo para quem do azar esquiva-se.
Nunca perguntei sobre o pêndulo que segura a sorte, o tempo para esse questionamento sempre dependeu do lugar que empresto as perguntas do quotidiano. Manuel, nome de um moçambicano qualquer, porque nunca contou na sorte. Tem pernas mais curtas, um bebé com tamanho de adulto. Afinal a sorte mede-se pelos saltos exagerados de quem acredita conhecer o progresso.
Para Manuel a sorte diz tudo, comanda ate coisas inexplicáveis. Tem olhos que trazem o futuro para bem mais perto do lugar mais perfeito do quintal: o cajueiro que sem sorte já não faz sombra.
Antigamente era a castanha que crescia por fora do fruto, hoje é o Manuel que faz a sua vida fora do seu quintal. Nas tardes o Manuel senta-se à beira da estrada, empoeirado – em parte porque a sorte nestes dias só faz chover poeira. Manuel diz que a terra deixou de ressuscitar, toda a sorte que a terra coleccionou durante anos foi sobreviver para outro mundo. Evaporou-se.
O Manuel aprendeu no secretismo dos dias passados a beira da estrada a fala dos estranhos. Eu sou esse estranho da sorte. Cheguei aqui para perseguir a sorte que não se encontra no progresso de uma cidade.
Manuel não entende essa sorte que leva-nos para lugares despidos de sorte. Nos jovens temos uma bússola desparafusada, alertou-me noutro dia.
Expliquei ao Manuel de que sou um fruto suspenso debaixo de um ramo seco: Filho do vento. O vento é a minha bússola, quebrado o ramo, o meu destino depende da forca do vento. Posso cair em quintais de outra sorte. Riu-se.

segunda-feira, agosto 11, 2008

A pegada de uma simpatica ideia II


Aprendemos que falar do meio rural deve ser na dimensão de um lugar longínquo. Neste momento sou um jovem rural, não nasci nestes campos verdes ou nesta pastagem de vacas, mas fui empurrado pelo cruzamento de coisas complexas, somos muitos nesta condição. O rural para nós (filhos da madeira zinco), é esse lugar ausente de uma cidade, onde a vaca e o verde têm uma relação perversa com o homem. Durante os efêmeros anos da adolescência cresci embalado no mito de que onde há vacas e arvores de fruta não há lugar para uma relação obsessiva com a fome ou uma privação emocional. Os campos verdes representavam uma superação de ícones do necessitado cidadão urbano, a necessidade de estar saciado e protegido contra flutuações do metical. A camponesa era em si um símbolo de abundancia, o seu pe descalço, com a enxada carregada no ombro representava aquilo que numa cidade não encontrávamos: a elegância de uma aturada tarefa de arrumador de terra. Pergunto-me às vezes o que terá levado uma geração de filhos de camponeses trocarem uma vaca leiteira no campo por uma red Bull num supermercado? De trocarem a vida de arrumador de terra em Manjacaze para arrumador de carros na baixa da cidade?.
Parece que o cerne de tudo passou a ser para muitos a defesa de um bloco ou de uma viga, ignorando a estaca, que em outras palavras seria comparar o agora com a fase anterior da nossa condição de fazedores de historia. Para isso basta ignorar o mundo rural que alimenta milhões de braços. Os africanos têm uma historia perversa com o seu passado, o futuro chegou com a nossa descoberta dizem os europeus e não temos a mesma coragem para dizer que o futuro já tinha chegado faz séculos “apartir” do momento onde assumimos a nossa condição de seres sociais e produtivos. E nesta condição de falta de coragem perguntamos o que terá desaparecido na elegância de um pe descalço? A narrativa e o humor que caracterizam as estórias contadas à volta da fogueira podem ser substituídos na sua maioria pela telenovela?

Alguns mais esclarecidos dirão que estamos perante o fenômeno da globalização, ignorando que a globalização produz-se no processo de negação de fenômenos de identidade perversa. Porque ai residem às relações do social. A uniformização de relações econômicas e sociais não resulta de forma extrema de um fenômeno a que chamamos globalização, existe um lugar mais exigente dentro da nossa condição humana que forçosamente obriga-nos a codificar nossas relações sociais e econômicas de uma forma critica por forma a garantir a nossa própria existência. O rural representa isso, esse lugar onde de uma forma critica conseguiu resistir a esta uniformização de relações sociais e econômicas de algumas pessoas.
O campo muda em paralelo com a cidade, por isso o discurso da globalização revela-se contraproducente quando queremos discutir o desenvolvimento rural, porque partimos de um principio de que o campo esta atrasado, o rural só existe porque o desenvolvimento deve chegar La, ignorando o lugar critico que o campo poder ter para compreender os fenômenos de uma identidade perversa. Quando escutamos a narrativa dos que do campo vivem, a colheita pode marcar o inicio de um novo ciclo de vida que para muitos não reflecte nada porque ignora o click no "Save as". A nossa revolução verde é isso. Amar o campo pela esperteza de um bom amante urbano onde importa a troca de um mito por uma sonda de sentidos apurados: a troca do mito do sumo de “Canhu” para aumentar a virilidade por uma red Bull.

terça-feira, julho 15, 2008

A pegada de uma simpatica ideia I

A idéia de que existimos dentro de uma verdade sobre a nossa origem empurra-nos para muitas perguntas. A maneira como somos tratados pelos Sul-Africanos nos últimos meses cai bem nesta idéia sobre a nossa origem. A palavra xenofobia conseguiu aglutinar toda esta discussão sobre a origem, não da xenofobia em si como um conceito, mas a origem do nosso ontem. Se ontem éramos bantus, súbdito de uma historia unificadora, hoje quem somos? Porque o ontem conta, muitos estão indignados com a atitude dos Sul- africanos, admira-nos a ousadia de um povo de ontem que vive o hoje sem remorsos. Isso mexe connosco.

Mas porque é que nos moçambicanos pensamos que o ontem devia ser como hoje nas nossas relações de vizinhança? Também não sei. Os sul africanos devem ter descoberto uma outra verdade, da sua reconciliação com o mundo que nunca saiu deles. O mundo deles foi uma fronteira de racismo e opressão, assim como foi o mundo dos Zimbabweanos e Moçambicanos. Então onde esta a diferença? Também não sei. Para dar sofrimento a outrem precisa-se aprender a acostumar o sofrimento, para oferecer a morte a alguém precisa-se saber que da morte não mais voltaras. Não é uma profecia, os homens aprenderam isso, não pelo instinto, mas pela aprendizagem de que a vida é uma coisa efêmera para ser medida. Por isso mal-dizemos que a vida tem dois pesos e duas medidas.

O sul africano descobriu isso, de que não há problema nenhum em pensar no sofrimento ou na morte. Foi assim para este povo durante décadas. A disposição da “revolta” esta La presente, a historia pode ser contada meio sem graça, mas não deixa de ser parte de uma vivencia. O que esta acontecendo na áfrica do sul é uma armadilha para os moçambicanos, isto é, não há futuro se o ontem não foi salvo.

domingo, junho 29, 2008

os habitantes da cidade 8

Nos últimos dias tenho dedicado o meu tempo para entender algumas coisas. Uma destas coisas que com muito custo, tento perceber é a nossa cultura política. Um conceito difícil, este de cultura política, porque dele aprendemos que existe um espaço onde as nossas ações são moldadas por um conjunto de formulas e contextos.

Mas o que faz a nossa cultura política neste lugar de onde escrevo? Não sei. Porque este lugar não existe na verdade, é um lugar de uma inverdade mal gerida. Torta, por exemplo. Mas importa aqui dizer que escrevo de um lugar que pode na minha imaginação assumir a particularidade de um “lugarelho”, às vezes de uma capital com elevada importância que quando adicionada a ingredientes de uma cultura política pode transformar nossas vidas. Os ingredientes podiam ser o voto, a eleição, a responsabilidade, a governabilidade, a ciência, etc.

Isto vem a propósito do nosso ministério de coordenação e ação social, primeiro foram os mendigos, idosos de Maputo em particular, que promoveram pronunciamentos de alguns dirigentes deste ministério (com o rombo no INSS, ai esta um caso interessante sobre os contornos da proteção social). Depois veio o famoso caso do camião interceptado com as “flores que nunca murcham” que se juntou a telenovela Diana, que como costume atingiu o seu auge com aprovações, na formula 4x4, de uma lei de proteção de menores na assembléia da republica. Finalmente, porque somos um pais de fraca auto-estima, vieram os turcos com as nossas crianças com suspeita de pedofilia e rapto de menores.

Um pais pobre não se pode dar o luxo de ter ministérios que funcionam desta maneira, senão estamos mal. Um ministério com representação distrital e provincial não se pode dar ao luxo de pronunciar-se e agir desta maneira, afinal onde esta a responsabilidade política para com a gestão de um pais e na proteção dos mais vulneráveis contra a ação de outrem? Senão vejamos, a accao social e proteção social respondem a um principio de precariedade e de risco que pode afectar a qualquer um, independemente do endereço físico (por exemplo, o caso das crianças vitima dos turcos). A pergunta seria o que o estado faz para lidar com a precariedade e o risco que as nossas crianças correm num contexto como o nosso.

Pronunciar que tudo isto resulta da pobreza é um atentado a razão.

quinta-feira, junho 05, 2008

Manos o chapa100 anda silencioso mas nao esta ausente. Depois de 6 anos vivendo na terra dos outros resolvi regressar a terra do indico. Encontro-me neste momento na provincia de Gaza, de onde o chapa100 instalou-se, para a satisfacao do bloguista Mutisse. Entao estou a viver o regresso e as perguntas que acompanham a profissao na area de saude.

so no fim da proxima semana poderei postar porque esta fase de re-socializacao tem suas nuances, onde as perguntas e a observacao sao a nossa arma para compreender o mundo. As rotas do chapa100, nos proximos anos, passam a espelhar a vida de Gaza, principalmente de Chibuto, Chokwe e Manjacaze.

quinta-feira, maio 22, 2008

la famba bicha 38


A vizinhança é uma questão social. talvez interessa saber como vivem aqueles que não tem vizinhos, porque a vizinhança representa a partilha não so do espaço geográfico mas também o espaço da percepção e discrição da identidade social/politica. A questão da violência contra estrangeiros na vizinha África do Sul mostra os contornos da vizinhança. O vizinho por mais bom que seja não é e nunca vai ser familia. Existe uma estrutura social que sustenta as relações de vizinhança que difere da estrutura social que sustenta as relações de parentesco – familia. A estratégia para a partilha de riscos econômicos e políticos dentro de uma sociedade requerem uma constante revisão das relações de vizinhança e de parentesco.

O ataque a estrangeiros nos bairros pobres na África do sul poderá ser reflexo de um conflito bem mais profundo entre a esfera econômica e política. O crescimento econômico não é capaz de assegurar o bem estar de muitos sul africanos, estas manifestações de violência poderão ser um sinal de questionamento ao discurso do crescimento econômico – postulado no principio capitalista. E quando a política não é capaz de ser um elemento de reprodução de uma coesão social, num contexto onde o mercado representa uma entidade de risco e complexo , poderemos assistir este tipo de manifestações sociais. então porque os estrangeiros? eu também questiono-me, precisamos de mais perguntas, por favor.

ps -  faz ja umas semanas que falei com o Basilio Muhate, de que o facto de a nossa elite "pegar" o Mugabe como simbolo de luta contra as "forcas" do mercado e da hegemonia politica é perverso, porque desafios desta regiao austral de Africa é bem mais profundo do que sustentar um ditador. dizia na altura de que os deafios para regiao ainda estao por vir: Malawi, Angola, Africa do SUL, isto no mais curto espaco de tempo.

segunda-feira, maio 19, 2008

The social fabric e uma andorinha 5

Decorre um debate “quente” e de surdos sobre O HIV/SIDA em mocambique. O fenômeno mais interessante deste debate, tem sido a pura manifestação de soluções aspirinas para fazer face a problemas estruturais do sector de saude. Uma das soluções aspirinas que caracteriza este debate de surdos foi a famosa acção de mandar “encerrar” ou “integrar” os Hospitais dia em todo país nos serviços nacionais de saúde. Alega-se que os hospitais do dia fomenta(va)m a "discriminação dos seropositivos”. Mas aqui surge a primeira questão, como se manifesta essa discriminação nos hospitais do dia? Porque onde existe “uma” há lugar para duas questoes, como se justifica que passados vários anos um serviço clinico-terapêutico e de apoio psico-social funcione em quase todo o pais fora do serviço nacional de saúde? O que significa integrar ou encerrar um servico de saude?

E quando todas estas questoes acima mencionadas adiciona-se a famosa ordem de mocambicanizar a estratégia de "prevenção ao HIV/SIDA" em resposta a fraca resposta da estratégia ate aqui adotada, fico com mais duvidas sobre o rigor do debate sobre o que queremos do nosso sistema de saúde em mocambique, acho que algumas pessoas estao a conduzir o PR para um abismo. Existe uma relação comunicativa entre mocambicanizar a mensagem e consumir mocambicano? Ou melhor qual é a diferença entre a palavra de ordem mocambicanizar e made in Mocambique? Isto num contexto (1) de problemas estruturais do pais e (2) da ordem mundial no questionamento da responsabilidade e eficiencia do estado na provisão de serviços e garantia de cuidados básicos de saúde.

Não pretendo aqui encontrar respostas, mas reflectir acima daquilo que se pede no debate de surdos. Porque um debate de surdos? Porque todos falam e ninguém escuta. Falar do HIV/SIDA em mocambique é falar de saúde no âmbito colectivo, isto é, dos processos colectivos que acompanham os momentos de saúde, doença, sofrimento e morte. E é dentro deste processo colectivo que reclama-se do estado a responsabilidade na provisão de bens e serviços para atender as necessidades de saúde da sua população.

Para aqueles que gostam de discutir o sexo dos anjos, este post não presta, porque não pretende discutir aqui o paradigma da “pobreza absoluta” no campo da saúde , porque para nós formados no campo de medicina social o “combate a pobreza absoluta” não permite construir um marco teórico-conceitual credivel que possa sustentar a introdução de um novo paradigma científico que sustente novas practicas, como esta de mocambicanizar as mensagens. Chamo atenção para o debate que esta acontecendo no blog do Patrício Langa sobre o “ensino técnico-vocacional”, apesar de ter reservas sobre algumas conclusões do patrício, mas concordo com ele quanto a existencia de alguns elementos de natureza conceitual e metodológica, estruturantes do campo da educação, que estão a ser ignorados para a compreensao e superação do problema da educação em África, particularmente em mocambique. O mesmo aconteceu na área de saúde com o famoso “saúde para todos”.

Como dizia no principio deste post, existe um debate de surdos bastante interessante. Mas seria importante conhecer as características deste debate, porque existem elementos mais que suficientes que mostram a “disfunção” da esfera publica no debate sobre políticas publicas. Existem elementos de natureza ideológico da função hegemonica do estado na provisão de serviços de saúde e por outro lado uma consequente presenca da “nova ordem de desenvolvimento” que introduziu elementos ( por exemplo a ONG-nalização de serviços de saúde) de concorrência contra a hegemonia do estado na provisão de serviços de saúde, que mostram a tensão existente entre o governo e actores não governamentais em definir políticas, estratégias, prioridades e modelos de gestão/organização dos serviços de saúde.

Um factor determinante a analisar neste campo de tensao é o desequilíbrio de poder entre o MISAU e as associações de serepositivos que opõem-se a iniciativa do ministério, na anunciada ordem de “encerrar” ou “integrar” hospitais do dia no SNS. Este desequilíbrio de poder, resulta também desta “tensão” bem mais profunda do conflito ideológico sobre a função e os limites da hegemonia do estado, entre o ministério e as ONGs. Os serepositivos neste contexto deviam representar a utente ou o beneficiario dos serviços do “hospital do dia”, mas no contexto mocambicano eles representam o objecto complexo que é saúde-doença-cuidados no campo retórico e pratico da saúde e da sociedade. Mishler (1984) identificou dois tipos de discursos no campo de medicina, que muito bem caracterizam este desequilíbrio de poder, (1) o discurso da medicina que representa o sentido técnico-científico da medicina ( que muito bem encaixa na justificao do ministro para acção tomada) , e (2) o discurso do mundo da vida que representa a atitude natural da vida diária das pessoas (o papel que os hospitais do dia desempenham na expansão dos cuidados domiciliarios e no apoio psico-social incondicional que deve-se dispensar ao doente).

Dentro deste quadro aqui apresentado, assistimos a um debate disfuncional onde os objectivos do ministro e dos “serepositivos” são apresentados como um postulado de uma “luta” ideológica e pelo control de sistemas colectivos de saude-doenca-cuidado e não pela qualidade de serviços prestados. Mas aqui há um factor que não esta a ser equacionado, que é o papel que cada um destes actores (estado, ONGs e a associação de serepositivos que representam todo o utente de serviços de saúde) deve desempenhar num contexto de avaliação critica das possibilidades de cooperação (entre o estado e a sociedade) na superação da crise do sistema de saúde em Mocambique. O mesmo pode-se dizer deste discurso perigoso sobre a ineficácia da estratégia de combate ao HIV/SIDA, que sem evidencias de um conhecimento transdisciplinar sobre o mesmo já avança respostas para mocambicanizar a mensagem (destacando componentes políticos) sem melhor articular novos paradigmas científicos sobre a complexidade da saúde-doença-cuidado no contexto mocambicano.


O próximo post, se o Espírito de nao-deixa-blogar deixar, vou abordar o desequilíbrio de poder entre o MISAU e a associação de serepositivos, que não só transforma os serepositivos em “vitimas” da luta ideológica entre o estado e as ONGs, mas que a nível de base (providencia de serviços de saúde) esse desequilíbrio de poder entre o serepositivo e o pessoal da saúde nos hospitais do dia resulta de um problema de comunicação ( e não de estigmatizacao) entre os provedores e o utente do “hospital do dia”.

terça-feira, maio 13, 2008

a vida sem 5

Os poetas e jornalistas moçambicanos Amin Nordine e Celso Manguana, estão proibidos de participar nos eventos da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) durante um período de seis meses (leia aqui). O país esta mal, porque é um país diferente dos seus cidadãos. A direcção da AEMO resolveu assumir poderes que não lhe competem. E para mostrar a força do novo poder instituído embargou as “obras” dos poetas Amine Nordine e Celso Manguana cujo lançamento estava previsto para esta semana e para os próximos meses. Não quero ser espírito da desordem, mas o direito a liberdade artística foi violado, os acordos que a AEMO tem com os patrocinadores não lhe da nenhum direito acima da tarefa editorial sobre a liberdade intelectual dos escritores e seus membros. E mais, a AEMO é património cultural dos moçambicanos e vive quase do erário público.

Dostojevskij, não por ser russo, fez perguntas sérias e difíceis. Uma das perguntas mais profundas era sobre a origem do mal na sociedade, e qual seria o limite da liberdade. Para muita gente estas perguntas são mesquinhas, porque a resposta reside na nossa própria existência. A AEMO representa o lugar das perguntas, onde Dostojevskij podia ser qualquer um dos membros da AEMO, não na plenitude das obras deste escritor, mas na busca do enigma do mundo. Os escritores têm esse privilégio, de serem ateus num pais onde governa um Deus obrigatório.

A AEMO resolveu assumir o papel de Deus, melhor a tarefa de ser o novo apostolo da ordem, porque onde não existe Deus tudo é permitido. Será?

sexta-feira, maio 09, 2008

la famba bicha 37



Caros, também fui apanhado pelo espírito do não deixa blogar como diz o Patrício Langa. Este tipo de espírito é chato, não deixa blogar mesmo. Estive em Nicarágua, esse país irmão do nosso. Dizem que a oportunidade faz o ladrão, eu digo que a pobreza faz a irmandade. Ser irmão do outro faz bem a vida, mas ser irmão do ladrão faz-te cúmplice, não acham? Eu não, tenho dúvidas dessas minhas conclusões. Mas a viagem foi boa, rápida, o resto faz parte do fórum profissional.

2 - De regresso a vida bloguista sou confrontado com o meu Desportivo de Maputo a levar porrada - acho que a imprensa esta euforica e o desportivo é vaca leiteira para as redacoes desportivas nos ultimos anos, isto sem tirar o merito ao Artur Semedo, na sua relacao com a imprensa - . Foram buscar o Chiquinho Conde, este que saiu do Maxaquene, não faz muito tempo, porque também nao trazia resultados bons. O nosso futebol anima, tive a sensação de que o Chiquinho era „filho“ do Maxaquene. Como dizem os mais velhos: aprenda o que é fora-de-jogo, o resto nao interessa, deixa para os adeptos.

3 - O Mugabe continua no poder, a espera de uma segunda volta que pode acontecer daqui a meses. Tempo não só é riqueza, é também poder. Os zimbabueanos mostraram que não sao passivos, mas sim apáticos. Um passivo não iria votar contra mugabe, em condições de violência e intimidação? Um passivo não se atreveria a votar. Um apático sim, iria votar e foi. Voltarei a este assunto num outro post.

4. Na imprensa local, escreve-se que a estratégia de combate ao SIDA não está a ser efectiva. Porque? Porque o número de infectados aumenta, respondem. Problemático. Mas como sempre ja temos a solucao: mocambicanizar as mensagens.

sexta-feira, abril 25, 2008

Ouri pota: ndana ndzoleeeee. Chapa100: ndzoleeee yanga

Hoje o motorista deste chapa100 completa mais um ano de vida. A idade tem seu peso, como qualquer pedaço de coisas úteis, a pedra por exemplo. Eu, tenho o peso dos sentidos difíceis, tão exímios para amar e perscruta-los como o búzio de um mar vermelho. E se o mar é isso então em plena constante amo a vida.
A idade tem o peso da pedra. De um rochedo carinhoso e forte para contemplar as ondas. Engana-se quem da pedra esquiva-se, não há como fugir dela, só podemos ampara-la. Nesta quase agradável noite, numa cidade tranquila e invadida pelo silêncio de um ventre africano, contemplo a sua opulência num sarau melancólico. O ventre devia ter sido a lua que na pedra casou, com olhos grandes de quem admira a exuberancia da vida marinha e que na procura do aroma, de uma orquidea, descobriu as montanhas de rubi.
Os caminhos fazem-se moendo verbos, mesmo quando andamos tão certos de um lugar que conhecemos. Por isso festejamos a idade, como a montanha de rubi, porque estamos cegos no verbo que conduziu-nos a pedra. A minha idade pesa por isso, mas devia ser mais leve, para no mar balouçar e na pedra esquivar. Não, não foi assim. Foi preciso ampara-la, com o peso dos caminhos percorridos e aprender amar a sua opulência. Da idade não se esquiva, ampara-se como o ventre africano, de olhos grandes, que na pedra do ex-miguel bombarda deu a luz. E nasci a 25 de Abril.

quarta-feira, abril 16, 2008

terça-feira, abril 15, 2008

os habitantes da cidade 6

1- Longe do blogue o mundo não para, afinal a literatura nha mocambicana mostra isso, o celular vai se mocambicanizando, enquanto Mugabe estuda a democracia, e devia estudar mesmo, outros dizem que mal aprendeu dos outros, todos nós sabemos. E a blogues fera activa perde o Eugénio, afinal tudo é uma questão de esperar pelo ano novo, enquanto uns ficam mais velhos, outros renascem. A vida é um evangelho, afinal" Everyone has the power for greatness...

2- A mania do mundo, esta no mundo. Isso mesmo. O mundo tem mania porque existe um lugar perverso que se chama mundo. Tão redondo como a nossa própria existência. Não é uma conclusão, são perguntas ainda mal formuladas. Hoje, depois de uma jornada académica, fui saborear o sol no parque. Quando aqui faz sol, depois de prolongado tédio e frio, o mundo tem outra mania. Fica mais rebelde na forma redonda de viver dos seus habitantes. Sentei-me na primeira sombra que encontrei, porque o território do sol estava ocupado, com uma multidão, na sua maioria feminina, bronzeando-se. Como dizia o poeta-critico Marcelino na aemo, as mulheres são como lulas, no sol brilham e na água...

Na verdade o dia sentou-se por cima do meu olho. O cansaço. Passei quatro horas moderando uma míni conferência académica, entre estudantes vindos da Coreia , Franca, Canada, Rússia e Republica Checa. Gostaria de ter certeza de que a conferência não foi um two man show, um “se-calhar-entendi” entre os participantes, o moderador e tradutor. Eu sempre pensei que tivesse nascido num chamanculo errado nesta coisa de línguas, mas hoje posso dizer que o mundo nasceu no lugar errado. O mundo devia ter nascido no chamanculo, o pulmão do mundo não seria a amazónia mas o kapekape, ex-centro associativos dos negros seria a biblioteca alexandrina, o mercado do Diamantino seria o wall street, o Vaticano seria a nossa missão são josé no chamanculo c, o cinema olympia a Meca, a rua dos irmãos Roby o Titicaca, a avenida do trabalho o serengeti e como bons chamanculianos podíamos emprestar o nosso New Orleans-french quarter ao bairro de xipamanine e o taj mahal ao bairro da mafalala, assim a língua do chamanculo seria a biblia de boas coisas para entender o mundo... Mas não, deus quis fazer das suas, e assim nasceu este mundo redondo.

Mas é a língua que torna o mundo redondo. Não posso culpar a deus. Nesta sombra que protege o corpo do sol e não a imaginação que percorre o mundo, vou respirando na fadiga e na mania do mundo. De quando em vez, distraio-me, nas mulheres que se untam com creme, imagino que o sol nunca viu um animal tão teimoso como o homem. A Cleópatra preferiu leite e deu no-que-deu.

terça-feira, abril 08, 2008

la famba bicha 31 - perguntar para perguntar

Os dealers da adrenalina

Talvez devia ser o título do próximo texto, com uma produção clandestina, num teatro amador. Sim afinal, tudo faz-se às escondidas, principalmente quando se trata de abordar alguns tabus. Mas os dealers da adrenalina não querem falar do tabu, não precisam porque isso exige um esforço intelectual que muitos dealers não tem.

Na infância falávamos de fofoqueiros, afinal a mercadoria era a língua e o olho de tudo ver e falar. Uma espécie de câmara mutante, num mundo onde tudo permuta entre prazeres de uma boa conversa e uma vontade para excitar o outro. O ouvido do homem era fraco, não a carne, o corpo no seu todo. A orelha e o lábio, eram companheiros da rua, de ver e ouvir num aparato de segredos. Mas será que era o aparato em si, ou a palavra é que nunca suportou uma prisão?

Mas o tempo encarregou-se de tudo. O homem já não é a prisão da palavra. E a palavra já não brinca às escondidas, não há mais escuro no corpo para esconder o verbo. Onde a língua e o olho dormitavam no escuro, nasceu outra mercadoria: a emoção. Hoje não temos mais fofoqueiros para entreter a palavra, mas dealers cujo trabalho é produzir adrenalina em massa. Um fordismo que as vezes transcende a mecânica do corpo e da razao.

Não serão o dzukuta e o pandza, os dealers da adrenalina? Talvez. E os forwardores do video do ziqo? Os agitadores da mao invisivel? Os que querem o povo no poder? Os que vivem do combate a pobreza absoluta? Não serão tambem os bloguistas dealers da adrenalina? Talvez.

sexta-feira, abril 04, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

A andorinha do Mugabe 3


1- Escrevi aqui e aqui sobre o Mugabe. Continuo pensando na andorinha do Mugabe, e naqueles que interpretaram a minha opinião como uma diabilização ao Mugabe. Hoje somos obrigados a assistir o que todos queriam ver: a forma precipitada para “inventar” uma formula de pensar numa África integrada sem a fragmentar. Assim como aqueles que adoram a andorinha e sem amar a chuva. A meteorologia dos sentidos, penso eu.

2- A meteorologia dos sentidos parece conduzir-nos para um abismo. Transformou algumas intenções de exercício crítico numa escolha entre a diabolização do Mugabe e o recurso ao nacionalismo. As escolhas representam aquilo que menos sabemos fazer neste continente: criar aquilo que Karl W. Deutsch chamou de security community. Este conceito foi aquele que inspirou o acordo de Incomati, o acordo de não agressão assinado entre Samora Machel e o regime do apartheid. Trocar a baioneta pelo diálogo político, e não a troca de baionetas de uma guerrilha em maçãs de um farmeiro bóer.

3- A história repete-se. Não no Zimbabwe, mas no dia-a-dia dos africanos, porque este continente produziu tanto líder que representa(va) o diabo revestido num discurso nacionalista, desde o Bokassa ate ao Idi Amin. O que intriga neste momento é perceber como Mugabe pretende salvar o Zimbabwe, e para isso não precisamos do diabo ou de um nacionalismo que assenta em apelos emocionais, mas de um líder inteligente, pragmático, que possa promover o diálogo entre os elementos radicais de uma oposição farta do regime de mugabe e os elementos mais racionais dentro da zanu-pf.

3 - Para um continente que esta habituado a revoluções ao estilo golpe de estado, não terá chegado a altura de assistirmos a uma nova perestroika no Zimbabwe? Porque só com uma perestroika pode-se garantir que o exercito no Zimbabwe (onde estão os mais radicais elementos da zanu-pf) não tome o poder. Na experiencia da repercursão que a perestroika de Mikhail Gorbachev teve nos paises vizinhos e no bloco sovietico, podemos vir a assistir tambem num futuro muito proximo o impacto da perestroika zimbabweana em alguns paises vizinhos na região.

4 - Agora caros bloguistas imaginem que neste momento a vossa situação social e económica seja esta: tens 84 anos, casada/o com um(a) mulher/Homem 30 ou 40 anos mais jovem do que tu, tens dois filhos menores, governas um pais em crise económica, os teus amigos vem bater a porta para exigir favores, a única pessoa que tem a maior possibilidade de tomar o teu poder não reconhece os teus compromissos com amigos e tua família, os teus vizinhos estão a espera que a morte te visite para distribuírem a tua herança entre eles, e o mundo pensa que estas velho demais enquanto a tua família quer-te poderoso e vigoroso por muito mais tempo, mas a tua inteligência diz que não podes planear as coisas da tua vida privada e publica, a longo prazo, porque não poderás ter vida para ver o resultado.

Usando a meteorologia de sentidos, como poderas resolver este maka da tua vida?

quarta-feira, março 26, 2008

la famba bicha 30

 Finalmente aconteceu. A política tem seu preço, o paiol também. O ministro da defesa foi exonerado, aqui termina a carreira política de um homem e abre-se um novo precedente na nossa história, para detentores de cargos publicos e politicos. Pena tê-lo feito tarde, porque a esta altura a honra e o bom nome do antigo ministro foi por agua-abaixo, deixou passar uma oportunidade única para salvar o que lhe restava de prestigio, na sua longa carreira militar e politica. Na altura logo depois das operações de socorro as populações vitimas da explosão do paiol devia ter-se demitido.

Mas fica aqui patente um caso que vai alimentar muitas páginas, quando se escrever a história contemporânea de Moçambique. Só que este ex-ministro claramente ficou preso no cargo porque não queria sair sozinho. Entre a responsabilidade política e a capacidade de gestao tecnico-militar do exército, há muita gente com culpa no cartório pela explosão do paiol, desde as altas chefias militares no comando do exército ate as chefias políticas no ministério da defesa.

As altas chefias militares saíram semana passada, em grande estilo, afinal estavam a cumprir um mandato de paz e reconciliação, com a mancha do paiol que ceifou vidas, disseram-nos que saiem com a missao cumprida. Só quem esteve longe dos acontecimentos não viu como o exército reagiu mal na gestão dos acontecimentos pos-explosao do paiol e a posterior acção de destruição de material bélico absoleto em Moamba.
Mas fica aqui uma grande lição aos novos detentores de cargos publicos e politicos, tudo tem seu preço, quer no dumba-nengue ou no supermercado.

foto:EPA

quinta-feira, março 20, 2008

os habitantes da cidade 9


A poesia sempre foi uma amante de revolucionários. Desde os mais novos ate aos mais velhos. Quem não ama a poesia, nunca poderá amar a solidão e a beleza da coisas, por exemplo o lugar das arvores e o intimo de uma anca. A revolução serve a isso, transformar os amores velhos em novos. Dizem que o maior sacrifício no mundo é escrever poesia, aquela boa poesia, para homens desarmados e desprotegidos pela ordem natural das coisas.

O meu amigo poeta e investigador Chagas Levene publicou “tatuagens de estrelas”. Com Chagas aprendi sobre as feições da leitura, o prazer de uma conversa intelectualmente saudável, a viagem pelos livros na boleia de uma loucura que chocalhava a porção restante de um livro ainda por escrever, encabulado numa taça de vinho. Veja aqui alguns textos e aqui algumas crónicas do seu trabalho de campo. E o tempo voltara, tem a mania da poesia

terça-feira, março 18, 2008

comentarios e virus

Caros bloguistas e  leitores, tem surgido nestas ultimas postagens deste blog comentarios em ingles. por  favor nao click nesses comentarios, ignora-os porque sao virus que pode danificar o vosso computador. obrigado chapa100