quarta-feira, maio 30, 2007

tio patinhas e o umbigo

Estes ano parece um ano que promete. Devia dizer que prometeu: o distrito como pólo de desenvolvimento, o jovem no distrito, novos reitores nas universidades publicas, o combate a indisciplina no IMAP e internatos, encerramento da clínica privada no HCM, a crise de medicamentos, o informe do PGR, o paiol, o crime violento, os 7 biliões, a morte do cantor jeremias, as cheias no centro, as nossas florestas, o incêndio na agricultura, o policiamento comunitário, a CNE e a sociedade civil, Eleições na FMF, a presidencia aberta, o recenseamento geral da população, recenseamento eleitoral, eleições provinciais, e muitos outros eventos sociais, que deviam merecer destaque.

Com todos estes eventos manos é impossível não estar de boca aberta. Tudo corre e acontece, a nossa vida se tornou uma Lurdes mutola, e mais: somos gigantes. A nossa vida é quantificada com segundos e centímetros que podemos viver e mapear o mundo a nossa volta. O mundo de querer perceber as coisas não interessa, é perca de tempo. A nossa vida deve só registar e mapear a meta. Uma vida a Lurdes mutola. Somos uma nação campea, não interessa o campeonato ou a medalha, interessa cortar a meta, ser primeiro em tudo.

E tudo que não conseguimos mapear fica para os outros. Mas esses outros não existem, é nossa imaginacao. O tio patinhas que promovemos. O tio patinhas que reproduz-se nos quadradinhos que não podemos ler. Cada quadradinho é um tio patinhas diferente, mais rico, mais pobre, mais trabalhador, mais preguicoso, mais cientista, mais propagandista, mais ambulância, mais burro, mais mukherista, mais burocrata, mais pensionista, mais dumba nengueiro. Mas é o tio patinhas. Não precisamos questionar.

Porque hoje ser tio patinhas é nossa meta? Viver mais em quadradinhos e ser rico? Porque?

Então somos um pais de segundos e centímetros? Não somos. Não foram os segundos e os centímetros que fizeram o tio patinhas ser nossa imaginacao. Mas nossa mania de olhar só para metas. O que faz a lurdes mutola campea, não é a meta, ou o campeonato. Mas o conjunto de coisas pequenas que precisamos de aprender: técnica e estratégia para correr. São pequenas porque questionam a pergunta : como correr bem e chegar a meta. E não a nossa mania que temos. Correr só por correr, porque a nossa solução é cortar a meta, cortamos tudo. Então somos um pais de corta-matos para cortar a meta. Desenvolver uma técnica e estrategia para correr bem e cortar a meta não interessa a nos mocambicanos. Por isso a nossa meta é o tio patinhas: ser rico e viver em quadradinhos.

O tio patinhas na nossa imaginacao é perigoso. Porque a riqueza do tio patinhas não é para viver com a riqueza social, mas para satisfazer um ego individual. Um ego que enche quadradinhos e não uma pagina. Um ego que para o satisfazer temos que desregrar tudo, negar pensar. O mais importante é nadar no dinheiro em nelspruit e não investir naquilo que legitima a tua riqueza: a sociedade.

La famba bicha


PS – Este rumor ou teoria de conspiração já é muito velho em mocambique. Agora com o fogo no Ministério da agricultura voltou a merecer destaque na imprensa local: que o incêndio foi um acto de sabotagem. Como o crime violento nos bairros de maputo, justifica-se como um acto de sabotagem ao governo actual. Isto é sinonimo de pensar com umbigo e não com a cabeça. Interpretar estes fenómenos como acto de sabotagem é perigoso. Sabotagem é um termo usado em técnica de guerrilha e subversao. Isto significa que indirectamente estamos a alimentar um acto barbaro de quem sabota e quem é sabotado. E estamos a dar asas e legitimidade ao estado para usar meios violentos para combater sabotadores que não tem cara. Isto significa que crime sem cara promove o excesso de zelo das autoridades no cidadão inocente. Este pais já teve exemplos disso, e o assassinato de suspeitos no costa do sol é exemplo vivo disso. Sabotagem e legitimar o uso de forcas legais de reacção contra crime fora dos espaços legais e democráticos estabelecidos em mocambique. Mas do que sabotagem estamos perante um acto criminal que requer perícia da policia, trabalho aturado da procuradoria e dos tribunais, e por ultimo resolver de uma vez por todas este conflito entre burocrata e políticos.

quarta-feira, maio 16, 2007

a personalidade do utero 1

Mulheres bem sucedidas revelam o percurso feito para a conquista

2007/05/16

Pelo menos 18 personalidades femininas moçambicanas de sucesso em várias esferas da vida do país, vão explicar o percurso feito para chegarem aos lugares que actualmente ocupam numa conferência a realizar-se, amanhã de manha, no auditório do Instituto Camões, na cidade de Maputo. ver aqui http://www.imensis.co.mz/news/anmviewer.asp? a=8794&z=15
Ai vai a mulher na procura de adjectivos e amores para inspirar uma luta numa sociedade linchadora. elas são personalidade por que são femininas, na esfera da vida. o que faz delas mulheres de percursos? e não de caminhos? e existem lugares não feitos sem o percurso feminino? e o útero da mukherista e da dumba-nengueira não é feminino?
São personalidades de numa sociedade de consumo e individualizacao de lutas sociais (paralela ao mercado informal). Anos atras faltavam percursos para produzir personalidades femininas motoristas, mecânicas e electricistas num meio social dominado por personalidade femininas dactilografas, secretarias, enfermeiras ( ver Abreu e Salomão 1996), estávamos no radicalismo feminista ou Marxismo- socialismo feminista.
Com estes fenómenos que temos assistido hoje, a fabricacao de percursos de personalidades femininas e a fabricacao de redes de mulheres parlamentares, empresarias, ex-dirigentes, assistimos a um fenómeno social de reprodução de poder e controle numa sociedade de risco capitalista onde o útero urbaniza-se no consumo e no sucesso, a vontade feminina de hoje.

terça-feira, maio 15, 2007

amor de zinco


Falta de iluminação aumenta criminalidade

MAPUTO — O elevado índice de criminalidade que se tem verificado, nos últimos tempos, no bairro Singathela, no município da Matola, província de Maputo, está associado à falta de iluminação e ausência dos agentes da Lei e Ordem naquela zona residencial.
In Tribuna fax, 15/05/07
- Tereza sabes o que la no escuro podemos fazer.

( Manuel com seus ombros altos, era um homem solitário, tinha uma língua presa, falava no pensamento, era pescador de magumba)

- vao arrancar-me os brincos, o muhivi.

( Tereza era apressada, no bairro tinha o nome de tereza-no-deixandar, porque não andava no passo dos homens, ate a saia com sua pressa ficava para trás na boleia do vento)

- Tereza você esqueceu que eu sou empresário, com o peixe de amanha posso te comprar toda banca de brincos no xipamanine.

( Tereza encolheu, estava pequena, perdeu a forca da pressa. A saia largou o vento, era branca e comprida, com uma cruz bordada no lado que cobria o traseiro)

- eu gosto da luz, posso ver teus pés e tua ruga.

( Manuel lançou um olhar a Tereza, porque os seus olhos eram lentos como mar dormente, olhou como uma eternidade, nem a vergonha da tereza teve paixão)

- no escuro é mais tranquilo, vamos ser duas pessoas, teu escuro e meu escuro.

( a voz desfaleceu, Manuel nunca amou ninguém, para ele o amor era uma magumba, existe para ser petiscado)

- e sem luz como vais saber que sou eu Tereza.

( Tereza era filha do pastor João, o mazione do bairro e chefe da policia comunitária, afinal policia também tem que ter poder de maluquecer um malfeitor, assim prometeu pastor João na sua nomeação)

- eu de olhos fechados consigo ver-te, apalpar-te a cruz que tens no traseiro.

( Manuel fechou seus olhos, suas mãos como ondas do mar roçaram Tereza que entretanto distanciou-se de Manuel, como um camelo que começa uma viagem)


excertos para a peca amor de zinco

quarta-feira, maio 09, 2007

...5.era outro mar

Aqui
Pode-se
Viver
A lembrar o tempo
A demora do silêncio
O entardecer
Do riso

E vive-se
Na distância
Longe de tudo
Que pode-se
Habitar

O mar

É aqui
Onde o tempo
Não tem
Lembranças
Conta-se o dia
Na ruga desfalecida

Na morte que nasce
Ao tempo
Da lembrança
Do mar.

...4.era outro mar

Palavras
Existem
Distraídas
Atentas

Palavras
Ávidas
Palavras grávidas
Despedidas
Existem

Palavras
De lavras
De homens

Palavras
Mulheres
Existem

No mar
De palavras
Grávidas


Mulheres existem.

sexta-feira, maio 04, 2007

ao meu companheiro Jeremias Ngwenha

hoje o dia sera tao longo. e nesta distancia, nao ha outro mundo, sem morte. mas a morte é tao apressada como foi a nossa ultima conversa. para ti a minha viagem nao era para o estrangeiro, mas para um mundo que iria questionar minhas verdades sobre a justica social. jeremias, depressa como as coisas que negavamos, como a seriedade que exigias de muitos na luta conta a injustica, a morte veio. lembras-te do sonho de transformar a loja, que dantes era cooperativa no centro cultural? lembras-te que dizias que os jovens roubam porque nao tem o que fazer, nao tem espacos culturais, nao tem campos de futebol, nao tem escolas?
a morte tem segredos. que so a morte sabe. e agora descobri um grande segredo Jeremias, queria em Julho contar-te, a gente viaja para conhecer a verdade do mundo e nao é verdade. a gente viaja para conhecer e questionar a verdade de nos proprios, o mundo viaja dentro de nos. assim descobri o teu segredo, cantavas e lutavas para dar a conhecer a viajem do mundo que vai dentro de ti.
e quando falaste da universidade, e eu falei-te de paulo freire. e percebi a tua luta.
la famba bicha Jeremias e paz a tua alma.

terça-feira, maio 01, 2007

a fala sem consequencia e a responsabilizacao

A interpelacao realizada pelo professor Elisio Macamo ( no seu blog ideias criticas) sobre a fala sem consequencias em relacao a gestao politica ou executiva da coisa publica é um bom comeco. Segundo o professor a fala sem consequencia e resultado da falta de responsabilizacao dos actos governativos. Assim diriamos que a responsabilizacao ela so é relevante quando existe uma clareza das instituicoes e das suas regras. falta de responsabilizacao é resultado da percepcao que temos da escolha efectuada pela autoridade política: A responsabilidade sem sancao.
Fazendo uso da teoria do reflexo de I.Pavlov segundo a qual os estimulos incondicionados provocam respostas incondicionadas. Os estimulos respondem a um determinado ambiente, que neste caso é a nossa esfera publica. Para muitos autores a responsabilizacao é resultado da complexidade de actos e funcoes que regem a administracao publica: prestar conta dos actos e accoes, cumprir prazos e procedimentos, imparcialidade e a legitimidade do funcionamento da funcao publica. Mas mais do que responder a esta complexidade da gestao publica a responsabilizacao significa que a autoridade administrativa deve prestar contas ao cidadao. E num pais onde o respeito pelos preceitos legais, o controlo das contas e a gestão eficiente dos actos e das medidas administrativas, essenciais a uma administração racional e transparente, sao interpretadas por alguns como um acto que visa negligenciar a legitimidade das políticas e da utilização dos recursos colectivos. Com a maturidade politica da sociedade, quando a cultura democratica prevalecer e os partidos politicos, em governacao, serem avaliados pela capacidade que tem na gestao do bem publico, ai assistiremos uma nova viragem na esfera publica mocambicana.
A falta de responsabilizacao legitima a practica corrente, do casamento entre o privado, politico e publico. Que é resultado da falta de eficácia no controlo, na fiscalização e na observância das normas. ( seria interessante um debate sobre a etica politica). E num pais como nosso que esta num processo de producao de certezas, numa sociedade em transformacao, a falta de responsabilidade e a fala sem consequencia tera um preco alto. Para mim esta fala sem consequencias que tambem assaltou o aparelho buracratico e gestores publicos, é a forma mais inteligente para promover a incompetencia, impunidade e mukherismus dentro de instituicoes publicas. O muhkerismu na funcao publica foi classificado de grande corrupcao e pequena corrupcao. Mas do que ser grande ou pequena, ela é exemplo do corporativismo empresarial que nasceu nas instituicoes publicas. Quando dentro de instituicoes publicas funciona uma cultura empresarial, bem organizada ( tem endereco fisico, representado por uma pessoa de direito, responde a teorias economicas de oferta/procura, dedica-se a venda de produto especializado: bens e servicos, tem uma rede a escala nacional, as despesas de transacao e capital de risco sao pagas pelo estado). Entao a luta que esta sendo feita contra o informal e resultado da ambicao corporativa do mukherismu, que em economias formais podiamos chamar de fusao.
Um exemplo interessante: o livro escolar gratuito, medicamentos e as chamadas “roupas de calamidades”, sao “roubadas-desviadas” dentro de instituicoes publicas, a custo zero (porque falta responsabilizacao), onde sao entregues aos dumba-nengueiros que custeam todas os inerentes a venda: transporte, suborno a policia municipal, taxa de mercado, armazenamento, salario de seus colaboradores, faz o calculo contabilistico e respectivo deposito bancario, etc. Enquanto isso o verdadeiro dono, esse ja sentado num departamento de uma instituicao publica, telefona ao dumba nengueiro para “saber da situacao do mercado”, atrasa a tramitacao do expediente da mercadoria que legalmente deve ir ao mercado. Entao os aliados do estado sao aqueles que dele beneficiam.
O dumba nengueiro e um produto desta falta de responsabilizacao, é o social mais activo das fraquezas do estado, a integracao do funcionario e gestor publico na economia de mercado. Mas para muitos este fenomeno, mukherismus e dumba-nenguismo, e resultado da expansao de incertezas que muitos mocambicanos enfrentam nesta sociedade em transformacao. O dumba-nengueiro na sociedade mocambicana é o gestor da sociedade de risco. O dumba nengue mais do que uma actividade marginal, ela responde a 3 factores:1) reproduzir o “capital de certezas” de funcionarios publicos e seus gestores da funcao publica 2) reproduzir o capital social, reforcando as relacoes informais, que reduzem despesas de transacao, facilitam uma circulacao rapida de informacao, por causa da relacao de parentesco muitos trabalham de borla e 3) funciona na base de confianca e nao de hierarquia, ( todos no informal somos patrao).
O fim da ilusao
Professor a fala sem consequencia e a falta de responsabilizacao é um tema que devia ser muito bem explorado pelos estudantes de sociologia e economia. E o exemplo acima apresentado, hoje mais do que nunca, revela que a falta de certezas de uma sociedade, pode ter muito haver com a falta de responsabilidade e a fala sem consequencia, e nao um acto inconsequente da esfera publica. Ela devia ser o resultado da individualizacao das relacoes laborais, da urbanizacao dos conflitos sociais , da ruptura entre o tradicional e o moderno na zona rural e nao do deixa-andar que atingiu a esfera politica e gestao publica. O fim da ilusao do poder e do estado é o comeco da responsabilizacao. A sua visibilidade é hoje maior devido, sobretudo, ao momento politico que estamos a viver hoje em mocambique com a eleicao do presidente guebuza, com o aumento de expectativas dos cidadãos e, a clara tendencia de que temos que trazer a confianca da sociedade para com as intitucoes publicas.

poeta de mabuzina

existem espacos, sem acento, virgula, espacos da lingua, mal falada como o amor de todos os dias. assim foi e sera por longos anos, porque onde corre a palavra, escreve uma mao solidaria, estrangeira e negra de si propria. o chapa100 e isso. essa corrida que vuna e gunga, que arranha e se fez gigante nesta corrida pela paragem, pelo cobrador que rouba-nos o silencio do bolso, do motorista poeta de mabuzina. la famba bicha, wena pa mozambique.

quinta-feira, abril 26, 2007

..3. era outro mar

Sobre uma mesa redonda. Uma terra gira. E os homens correm.

- hoje o dia devia parar
- e a noite devia ser longa
- nao! a noite devia ser comprida, assim como a linha que coze teu botao
- Sim, mas a linha que coze é curta. Entao a noite devia ser redonda como o botao
- entao eu quero ser uma blusa, cheia de botoes, assim como a blusa de uma princesa cigana.
- eu quero ser a camisa do palhaco, tem botoes quadrados, um em cima do outro

E a vida podia girar com outro ritmo. Assim como um chapa numa manha de domingo

- sentas sozinho
- nunca sentamos sozinho
- so falei para fabricar uma conversa
- nao sabes que no chapa a gente so fala com a janela
- na janela faz muito frio
- nao é a janela que faz frio é o medo da viagem, o corpo que ganha velocidade
- o chapa nunca viaja, salta de paragem em paragem, uma viagem tem que ter paisagem
- e tudo que fica para tras quando o chapa vuna, é o que? Um sapo que saltita meus olhos?
- é kuxa kanema, a nossa vida como povo, um documentario de sapos
- entao sou um sapo, que precisa de uma janela para visitar o mundo


Choveu para madrugar o dia hoje. Mas madrugou a desgraca. O tempo parou. E o mosquito dormiu.

- a chuva nao presta, juro.
- é romantico. Podemos molhar e lavar o corpo
- lavar o corpo? O caminho para chamanculo é matope.
- entao hoje vais ser minha arte, vou te fazer panela de barro
- e eu vou sujar-te, pintar tua alma de raiva
- porque?
- a chuva nao é para mukheristas, é para campones
- e nao tens saudades da terra?
- fugi da saudade, a unica saudade esta no sol para secar minha alma, doidar meu juizo
- o sol nao sai de casa porque alguem quer governar um juizo
- entao ele sai para que?
- para eu ver tua anca, encontrar-te na luz, entendes?
- nao, ainda nao entendeste que nao tenho juizo, falta sol.

quarta-feira, abril 18, 2007

...2. era outro mar

Na lua

Crua

Que merece

O dia

Que adia

E nasce

Hoje o novo

De novo

Renasce

Sereno de gesto

Como mais um destino

Endiabrado

Na lua

Que nasce


Bravo o mar

sábado, abril 14, 2007

de-mar

Mar

De um corpo

De dois corpos

De um seio

De outra pele

N'outros olhos

De um oceano

De cada beijo

Um corpo de mar

Em momento de suor.

quarta-feira, março 28, 2007

poema 358


Uma varanda. Pequena. Com 2 vasos de jasmin. Nada mais. O idoso era meu amigo. Sentavamos, no por do sol, para passearmos a mente e a disputa dos livros que lemos durante o dia. Nem todos os dias o velho queria falar. Nao era necessario. Murmurava na jarra que regava as flores. Como a varanda era um espaco pequeno, eramos amigos encostados e carentes de qualquer dialogo.

Hoje faz 5 anos. O velho deixou de falar. A ultima palavra foi para pedir que leve o vaso de jasmin comigo. Neguei. Nao tinha tempo para tamanho sacrificio de cuidar de plantas e rega-las 3 vezes por dia. Nao contestou, eramos amigos. Aprendemos ao longo dos anos a dizer nao, era a nossa maneira de contrariar o mundo passivo que rodeiava nossa vida. E o velho assim devagarinho abracou-me, fiquei estatico e confuso. Afinal estes anos todos nunca nos abracamos. Podiamos rir e tocar o ombro do outro para chamar atencao sobre o poema que nao sabiamos declamar. O abraco foi forte, como um arrame que enrola um presente perdido. Perguntei porque do abraco. Encolheu os ombros e riu-se, o velho nao ria muito. Durante anos resolvi procurar na ruga e na barba escura algum sorriso. Tarefa dificil, nao havia dentes para contar, havia uma pequena ruga que atravessava o labio inferior. Quando a leitura era boa, a ruga desaparecia do labio. O unico sinal sorridente que aprendi a apreciar.

Cincos anos passaram tao rapido, mas hoje o dia esta lento. O vellho nao mais pode andar. A cegueira veio tao rapida como o sol que deita rapido. Estes dia leio sozinho, contemplo solitario o por do sol. Ao meu lado o velho estica-se, mexe a barba e a cinza que cai do cigarro russo que fumamos. A unica coisa que partilhamos da nossa ultima viajem a russia, perseguiamos a biografia do Neruda e Tolstoi. Na russia aprendemos que temos que fumar forte para ler.muitos anos passaram e a biografia acabou esquecida, a viajem faziamos todos os dias na enciclopedia russa e na revista Pravda. Para alem do sol, da lua, e passaros, no quinto andar somos os ultimos vizinhos, num edificio para pensionistas do exercito.

O velho de nome Armando foi um combatente, de uma companhia de artilharia. Nunca atirou, era comissario politico. Aprendeu a escrever a maquina e a ler sobre a revolucao no exercito. Segredeu-me que escreveu muito sobre a poesia de combate, era a unica poesia que nao passava pela censura. Nunca publicou. Nao havia tempo. A guerra e educacao politica do militar era importante. Segredou-me zangado. Hoje recebeu a carta do hospital militar, so pode receber tratamento se for internado. Nunca disse o velho. E escrevi nunca na carta respondendo ao medico. para Armando a morte no hospital nao tem sentido. com a velhice nao se luta, escreveu no poema 358.

sábado, março 24, 2007

no meu pais o paiol namora o calor, e no amor saiem faiscas

a morte. é uma perda. a vida que nos deixa. nao segreda. é menos vaidosa que a vida que nasce. na morte, somos pequenos homens esquecidos pela vida. alguem decidiu que devia ser assim. e inventou o luto. o preto. o caixao. a lagrima. para de nos cobrar o que nao somos capazes de entender na morte. uma paiolada de corpos.
a vida anuncia-se. uma pronuncia da barriga que engravida. do nome que nos dao. do sexo que deus escolhe.
a morte aparece. no estilhaco que nao avisa. na corrida que rouba o destino. na crianca perdida. no panico que nao tem coordenadas. o sul ou norte na morte nao interessa. interessa que a morte nao escolhemos. escolhem os outros. um deus humano. deus que tem patencia, salario, passaporte diplomatico, guarda-costas, e nome.
no meu pais a morte ginga. anda impune. inventa circus. e nao é palhaco.

sexta-feira, março 09, 2007

e tu borboleta, betinha.

eu estou assim enjoado. de uma gravida. de pensar. e saudades. essas coisas engravidam. brincas? os filhos tardam chegar, estao no prolongamento da gravida. tem essa mania de mostrar umbigo a toda gente. manias que deves ter percebido, na tua gravidez. nao é?
poeta. esse nem fala. a gravida tem ciumes. nao deixa falar. escrever. pode cocar-se. uma inocencia de uma vida dupla. a lingua e o prazer. vou preferir uma encubadora.
falando a verdade nao é medo de brincar papa e mama. a idade pesa. nao so a gravidez. um peso desqualificavel e pretencioso. assim como a brincadeira que me propoes. imagina que vou te ngungular. ja imaginaste? cara-a-cara? melhor nao falar. depois vao dizer que na poesia nao se faz asneira. suca voces.
hoje estou velho. por causa da capulana que amarrei. uma barriga tem vicios. uma capulana para embelezar a barriga que desfeia. que fazer? melhor gingar na inocencia. fingir e amarrar rugas. nao basta esfregar musila na cara, tambem temos que esfregar na barriga. ela se tornou nosso cartao de visita. nao foi assim contigo?
entao a velhice é nosso destino, como a minha barriga. nao questiona, nao nasce. vive assim quieta, mastigando minha juventude que nao mais posso aproveitar. com essas coisas nao vale-pena lutar. contra tua propria barriga? teu cartao de visitas? nao.

existe o poeta. no seu silencio. vai te acarinhar. escutar os pontapes do africaninho. fingir que ama na tua desfeia barriga. alguns dias vai-te escrever versos, para te inspirar que teus seios nao mais vao envelhecer. escrever-te que o leite que gota, é mel, prazer que nunca esgota. afinal o poeta nada mais sabe do que escrever aquilo que no sexo nao se explica. nao foi assim contigo?
é esse amor pelas coisas. na barriga que é redonda e empurra. assim como o sol que nos faz acordar, sem avisar. o galo canta alto como o pontape que o africaninho experimenta na parede da minha barriga. se ele soubesse da parede que nao é. imagino que xutava para dormir seu pe toda vida. afinal doutro lado da parede, nao ha umbigo que alimenta. o poeta? esse é tao txonado como a poesia. escreve bonito e le bonito, mas faz pouco para viver ate outro dia. o poeta é como uma borboleta. vive um dia. colorido, gingao, marrabenteiro, mas nao a vida para outro sol.
e tu? minha borboleta.

terça-feira, março 06, 2007

retractos do sonho

Ia Basta – retractos do sonho!

A nhamundwa mathe


O que se pode pintar no rosto de um homem? A vida.
Quando não mais podemos chorar, falar, sorrir, resta-nos o que no homem sempre habitou, a arte, o pedaço que não foge ao olhar e ao silêncio.

A pintura empresta ao homem a palavra muda mas certa para dizer Já Basta., porque “a arte é eternamente livre” escreveu kandinsky.
Já Basta! mostra que a pintura deve ser livre, servir os homens. Retractar a exuberância da alegria, da miséria. da tristeza , da beleza, dos números, do sonho.
Mas é no sonho que reside esta pintura. No sonho do rosto que deve-se retractar, emprestar-se às fantasias do real, e medir na tela a liberdade do mundo.
A cada traço percorre-se o limite do interior , a sensoriedade do dialogo entre o sonho e o real. E ai reside o homem do rosto, que lhe faltam olhos para contemplar-se a si próprio.
Muitas vezes negamos a liberdade da pintura, talvez porque ela se retracta com retratos, e não com rostos. Nhamundwa, perscruta a vontade da liberdade, que ‘e mais que um retracto, onde o sonho se exorciza e Nhamundwa excede-lhe o sentido.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

...1

Faltam dois dias. um mundo parece pequeno, o mapa encolheu. Sobraram ombros e algumas lagrimas. Porque chorar? disse Lewane. A vida em dois dias mudou a direcao da ruga. Estamos mais velhos. A idade pesa? disse Machaia. Porque ter idade se em dois dias vamos pesar uma idade que nao temos? Lewane comenta para nao chorar. Uma mulher nao pode chorar por coisinhas na vida, quem chora no parto nao chora mais. Nascer uma vida, pode magoar o mundo, chorar como cheia, tive 6 filhos. Lewane grita.
Lembro que a nossa aldeia foi esquecida ha muitos anos. A cheias levou nossa vida. Mas como sempre ficaram alguns trapos. Nos e algum gado. trapos? indagava Machaia. Trapinhos, acho eu, somos muito fracos para fazer uma manta, Lewane abracou Machaze, unico bebe que o jacare deixou nadar. Machaze e nossa verdade, os espiritos deixam esperanca, disse Lewane. Mas como esparanca Lewane? a nossa vida passou rapido neste mundo que encolheu, nossa vida esta mais leve que a folha arrancada pela corrente da agua. Temos so dois dias. A agua vai derrubar o tecto.
Os espiritos nao fizeram nada, quando o tecto cair, vamos morrer todos. Machaia nao hesitava um comentario com frio que assobiava nossas vozes. Eramos fantasmas para gritar. gritar? nos as mulheres ja gritamos ha muito tempo, quando te dei 6 filhos que o rio levou. Nasci para alimentar estes crocodilos e a ti Machaia. estas palavras ouvi toda minha vida, as mulheres nunca esquecem. para que esquecer? solucova Lewane.
(in Lua das cheias)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

re-mao

Uma mao

de mao
grande
de mar

uma mao

de mao
com mar
grande

uma mao

de medo
fugiu para longe
grande da vida

uma mao

de mao
onde o mar
nao mede a mao.


Uma mao

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

chimuenges

A mente
do demente

era dos tenentes
senhores de guerra

a mente
de guerra

era sirene
rara na machamba do tenente

era tomate
numa mina

a mente
de guerra

dos tenentes
que escrevem memoria

da mente do demente

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

com oxigenio para SU.

acredito no farol. acredito tambem na lampada. o farol e grande, ilumina o mundo. a lampada, ilumina o passo, o canto que espreito, pequenas coisas que busco. o farol e sereno, silencioso, o fim do mar. a lampada e o comeco de tudo, barulhento. o farol e o olho da terra, o fim do perdido. a lampada e o braco que procura algo, a procura do perdido. o farol e para o navegante.a lampada para o escondido. todos somos guiados pela luz. no silencio e no medo das coisas.

sábado, fevereiro 03, 2007

falar-da-gravida

Cena I

Escrever pode ser uma dor. Pequena. Do nosso tamanho. A dor que tem ruído, faz tudo que lhe apetece.
As vezes tenho a sensação que poderia viajar com ela. com a dor.

Cena II

Por muito tempo acreditei que podia descrever a dor. Torna-la comum, igual as crónicas de viagem, falar de pequenos momentos.


Cena III

Penso. Contigo. Na dor.
Na melhor maneira de escrever-te
Enviar uma mensagem
Da noite que é neste mar

Cena IV

Vou escrever como pediste. Sabes que custa escrever? Imagina. O parto. Sou da gravidez de 12 meses, de ventre ambulante . Todas as mulheres foram minhas mães, uma por hora, outras por dias, aquelas que queriam mais tempo não pude dá-las, afinal queria ser justo com o ventre delas.

Cena V

A porta. na Dor.
Enorme e barulhenta
Amistosa e distraída
A Porta
Torta
E Talhada
A ferro ou a madeira
Tem a maldade
Da porta. da dor.

Dor do mar



Cena VI

Aquelas que toda noite fui sonho delas, queriam que o parto fosse com elas, por vezes encontrei barrigas quentes, dóceis e bonitas. Eram barrigas de cegonhas para a minha mãe.


Cena VII

Umas eram estúpidas
Davam-me nomes esquisitos
Falaram da tristeza, a que
Me espera
Fora do ventre

Cena VIII

Aprendi
Que a barriga tem a beleza do mar
Serve para tudo
Da vergonha ao orgulho

Cena IX

Contam que na noite o mar não dorme. Nunca se perguntou a razão à noite.
O mar não aceitou o meu convite ao sono. Agora dou-lhe razão, o sono deixou de ser milagroso: ao se acordar os corpos continuam famintos e a religião domina a esperança, as lágrimas continuam a salgar o mar.