segunda-feira, fevereiro 25, 2008

the social fabric e uma andonrinha 2


“em quantas partes se vive um grito
Em quantos corações se parte uma terra
Em quantos olhos se come o sol
E em quantos pães se mata um sonho?”1.

Parece que a nossa vida de homens pacíficos mudou. Não sei quem foi que disse que nossa indignação para com a injustiça, a incerteza, a incompreensão, o obvio, o medo, a mudança, o crescimento, a pobreza, a riqueza, a tirania, a democracia, o beijo, o linchamento, nunca existiu. E quem tem a memória mais lúcida, vai explicar-nos sobre tempos pacíficos e menos violentos da nossa história, onde o realismo de um passado menos documentado e violento pode casamentar com nossas paixões inquestionáveis para com a paz e a moda de santos apertadores de cinto. O mundo mudou, e como obvio mudou a nossa percepção de homens fazedores de história.

Quem não se da conta disso, esta condenado no drama de um mundo real que não permite estar perto daquilo que pode confiar: o governo, a família, o estado e suas instituições. O estado está mais para uma instituição telenovelada, ele institucionaliza-se em personagens coreografadas num mundo de apelos a emoção e afecto que não encontramos no sofá ou na esteira da nossa casa. Por vezes reforça o realismo com encenações de apelo ao louvor, a celebração de conquistas, como se a sua existência fosse suficientemente inquestionável, afinal ser cidadão é universal, ser pobre também. A desigualdade é isso, legitima a existência do estado, onde o governo existe como aquele que esta para contar uma mesma história, segundo duas perspectiva separadas: nós e o povo.

Não é pessimismo. Não há lugar para isso. Porque ser pessimista num pais onde todos têm respostas? Fazer sugestões pode ser fatal, morres com uma bala de borracha requintada de chumbo. A resposta já a encontras: devolver a indignação, ate ao último minuto, para aqueles que tem esse direito, de recolher nossas indignações e estuda-las como o geólogo que na pedra não se apaixona, só no murro que não se humaniza. De que adianta procurar respostas num pais que não permite sugestões?

Mas a resposta encontrada não satisfaz. Afinal qual das duas perspectivas da mesma historia permite devolver a indignação onde ela sempre pertenceu? A indignação sempre pertenceu aos homens, o mundanismo retirou-nos isso, porque a sugestão de que todos podemos indignar-nos pareceu-lhes caricata. As manifestações resultam dessa indignação, com a nossa postura de negar sugestões “Em quantas partes?”

1 Excertos do poema “Em quantas partes?” de José Craveirinha - Colectanea breve de literatura Mocambicana, edicao Identidades, Porto, 2000

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

The social fabric e uma andorinha 1



Durante muito tempo coleccionei uma data de coisas semi-úteis na minha vida de emigrante. Apesar de nunca considerar-me um emigrante, porque ser estrangeiro faz parte da vida. Emigrar nao doí, faz da nossa vida um pequeno filme de incomensurável respeito. Quando rebusco a infância, existem lugares e pessoas que auto-ficcionam, uma moldura de coisas passadas. A beleza esta ai, no pequeno mundo de memórias, que no fim do dia, enamora-se no mundo que emigra constantemente em nós.

Mas será que isso basta? Pormenor importante esse de reconhecer os limites do que consideramos excelente. Redondamente podemos dizer que somos homens de um pais redondo, porque como emigrantes giramos ao ritmo de uma bola, impressionados pela larga presença de terra, prazer, lugares, e uma atracão por cultivar coisas praticáveis e ou apenas que fascinam. E será que isso basta?

Não sei onde buscar palavras de sol e chuva. Sim afinal, tudo que no sol brilha na chuva molha. Não é um verso, mas um pequeno pormenor de um emigrante. O sol não é sinónimo de calor, mas de uma energia feminina, representa o que é colorido, pseudo-seduzido, e simbolicamente sensual e ingénuo. Como emigrante tenho esse direito, de feminizar a vida.
A chuva, surge como a nossa primeira conversa com o mundo. Chove como ideias de um pensamento discreto. Uma chuva liricamente livre, assim posso caracterizar essa vontade de sair molhado. Quando todos correm a procura de abrigo, o emigrante deixa-se pingar, molhar sua ténue vontade de ser sempre o menos significativo, para os que da chuva abrigam-se.

E as pequenas coisas úteis de um emigrante surgem como vocábulos de uma língua que menos amamos. Aprende-se a amar aos bocados, mil coisas de uma vez só, porque o prazer e o instinto aprumam-se. Como um telescópio que procura e perscruta um cometa desarmado, substancialmente livre de um universo de segredo humano e outro divino. Então ser estrangeiro é isso, nunca um emigrante, porque o mundo é redondo. A terra emigra, nós ficamos em sentido como guardiões de um universo poético, mal amado, mas resistente numa memória de criança que auto-ficciona-se, como um adulto prenhe de saudades.

Mas será que isso basta?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

a vida sem mais 2


Segundo um dos jornais Fax da praça, o conselho municipal veio anunciar que 2 empresas privadas (portuguesa e sul africana) ganharam o concurso para a recolha do lixo no municipio de Maputo. Finalmente, vamos ter uma cidade limpa e cheirosa. Só que até agora ninguêm quer disponilizar os números envolvidos nesta operação. Os numeros dizem muito e como dizem. E neste municipio de Maputo, ha gente que gosta de brincar com os números.
foto de Ouri pota
o sociologo elisio macamo no seu blog postou alguns textos que tocam a questao da corrupcao e o desenvolvimento do nosso pais. E porque andava ocupado com as minhas ferias e pesquisas, nao pude participar activamente no debate. Prometo voltar a este assunto, na tese de que os problemas de desenvolvimento em mocambique resultam muito mais da fraca capacidade interna de formular melhor o nosso proprio entendimento sobre o desenvolvimento. O ataque a industria de desenvolvimento tornou-se um mero exercicio interno para negar a nossa responsabilidade nacional para com os problemas sociais e economicos.
Deixo aqui uma referencia ao artigo do jornalista J. Langa sobre o estado generoso.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

os habitantes da cidade 9


- Comadre! Viste o que aconteceu?
- Não vi, diz lá comadre o que aconteceu!
- As crianças, comadres. Essas nossas crianças, não tem juízo comadre?
- O que aconteceu comadre que já estou a ficar nervosa?
- Elas estão a manifestar contra o governo?
- Jura!
- Sim, comadre!
- Qual governo? O nosso governo?
- Sim, o nosso!
- Eish! Já não há respeito, comadre! Nada, juro!
- Sim, não há mesmo respeito, damos de comer e beber comadre, e ainda manifestam!
- E logo contra o governo, o nosso governo comadre!
- O nosso governo comadre, não merece isso!
- Mas eram crianças de quem? As mães devem ser chamadas atenção.
- Eram crianças do povo! Comadre, as mães nem estavam lá.
- Estavam aonde?
- Comadre afinal não sabe? Elas também, estão a manifestar
- Jura?
- Sim comadre! Elas, as crianças e o povo.
- Então já não há respeito! até as crianças e o povo?
- Por isso comadre! Por isso!
- Coitado do governo!
-...eish comadre...governo só!
- Ta a ver a tua filha comadre ai na rua a manifestar, contra o governo?
- Nada! juro...minha filha? A Nyeleti? Essa tem juízo comadre.
- A minha Joana também, tem juízo, nunca chumbou...
- E a Nyelete comadre! sempre dispensa.
-...hm
- Ah sim, saiu ao pai...o Alberto tem juízo, apercebi-me disso logo que ele ia ser alguêm quando ainda namoravamos...
- E não falhaste comadre, hoje ele é ministro, e até fica-lhe bem aquele cargo...
- Fica-lhe bem...mas comadre governar aqui neste paĺs, nao é fácil...
- Mas comadre o que interessa mesmo é que estão bem...
- Ah isso não tenho razões de queixa...E o teu João comadre, pensa mesmo que ali na oposição vai ter cargo? Com aquela gente ali?
- Comadre tu conheces o João, ele quando mete uma coisa na cabeça ninguem lhe desvia...sabes como são as pessoas do sul comadre.
- Mas comadre, afinal você não tem força? Pensas que Alberto é ministro hoje porque?
- Comadre pensas que não tentei? Tentei toda minha vida, cansei-me, até o burro cansa-se de puxar a carga...
- Mas somos mulheres ou não comadre!? As criancas podem manifestar mas nós mulheres lutamos comadre, por tudo: familia, filhos, marido, por tudo comadre.
- E pensas comadre que não lutei!? Sou a única em casa que luta por este governo, as crianças manifestaram-se, o pai também, eu fui a única que vim logo que pude, para avisar a comadre...
- Avisar o que comadre!?
- Para a comadre não mandar tirar os chapas da garragem para a rua, senão vão ser queimados e apedrejados pelas crianças...comadre!
- vocé é mesmo amiga comadre...pena que o compadre João e Alberto não se entendam.
- Muita pena comadre!
- Hm...

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

la famba bicha 27 - manifestacoes em maputo

Caros bloguistas e leitores, voltei. As férias foram curtas, tive que encurta-las devido as manifestações/protesto popular contra o aumento do preço do chapa 100. Não podia manter-me tão longe dos meus leitores e colegas da blogsfera. E o regresso não tem nenhuma intenção de "simbolizar" uma solidariedade do "povo no poder" com os meus passageiros. O lucro não tem dessas coisas. Na vida de pequeno empresário, podemos "ter" uma responsabilidade social, mas só ao nível do imposto. Pago com respeito à contribuição que a sociedade tem para com a minha vida de cidadão e a dos meus. Então, a minha responsabilidade social, com a obrigatoriedade do imposto, faço-a com responsabilidade de quem acredita nas suas limitações para ser "Deus" dos outros.

Na minha pequena introdução, devem ter percebido que não sou um qualquer: sou pequeno empresário. Não tenho uma frota de autocarros de luxo, mas tenho chapa 100. Tem lugares multi-funcionais, uns " sentam-se de pé", outros "sentam-se sentados", tudo depende da tolerância que cada passageiro tem para com os “buracos da vida” e a escassez de transportes urbano. Ser empresário é isso, dar a cada cliente um "prazer" diferente com o mesmo produto, acho que o produto e a marca chapa 100 sustentam-se com isso. Aprendi esses "truques" com a 2M, uns bebem com prazer de rico outros bebem-na com prazer de pobre, mas todos somos aliciados pelo " orgulho nacional a nossa maneira", produzida ali no Infulene rodeada de hortas "embelezando" a revolução verde na cintura de Maputo.

A vida do pequeno empresário funciona com "truques" que aprendemos de grandes empresários. O "truque" que dificilmente consigo apreender tem a ver com o "truque" dos impostos e isenções fiscais. O grande empresário diz que ele representa grandes investimentos, por isso não precisa de sindicatos e confederações de interesse "popular" ou empresarial, tudo ele negocia com o governo, directamente. Quando precisa de isenções fiscais tem uma audiência imediata com o governo, quando alguma negociação complica-se rebusca a palavra mágica: investimento estrangeiro. Logo marca-se uma outra audiência, imediatamente as vezes com direito a debriefing no conselho de ministros. Passado dias, o grande empresário é inaugurado com sirenes e combustível, que devido ao seu estatuto de investimento estrangeiro por três anos não vai pagar a totalidade dos impostos para custear as despesas da sirene e combustível do "chefe" que foi lá inaugurar o investimento. Este truque do grande empresário ainda não deu para aprender.

Quando o pequeno empresário tenta “entender” junto do governo como "funciona" o truque dos impostos e isenções fiscais, somos encaminhados para reunir em confederações empresariais. E Quando o pequeno empresário "pede" audiência com o governo, chamam-no encontro tripartido, porque o governo exige a presença do sindicato de trabalhadores em representação de "passageiros" que viajam connosco sem nenhuma identificação: de operários, camponês, estudantes, idosos, desempregados, domésticas, funcionários públicos, carteiristas, trabalhadores do informal, empregados comercial e industrial. E o encontro revela que o pequeno empresário deve “entender” que imposto paga-se, sem isenções, e o preço do chapa 100 só é legítimo se o sindicato aprovar. Então aprendemos que existem truques que ultrapassam nossas capacidades de pequenos empresários.

Por isso inventamos nossos "truques", do pequeno empresário. Afinal, " a nossa maneira" somos pequenos empresários. O “truque” ate aqui parece eficiente: encurtamos rotas, “negociamos” com o policia de transito e camarária e não com o sindicato, marcamos audiência na hora do almoço no estrela ou museu com o funcionário da reparticao fiscal, "tapamos" os ouvidos da nossa consciência pesada com musica alta, inventamos "nossas zonas " francas para investimento na rota, resolvemos ser governo e decidimos quando e onde o passageiro tem "isenção" de 2.500 meticais no seu investimento “estrangeiro” da renda em casa.

A vida do pequeno empresário, tem “truques” de responsabilidade social, Como puderam ver. Afinal descobrimos que “podemos ser deus” na terra e no céu. Alguém duvidou disso? Somos o novo evangelho, “o rebanho” saiu a rua todo em nome da fé, do bem-estar. Não foi em nome do desespero como alguns tentam demonstrar, o ritual da “religião” da fome não permite isso. Jejuamos, todos os dias, em nome de impostos. E chapa 100 é isso, uma “religião” de truques, que produz o social e chapacentea qualquer cidadão que negue esta responsabilidade que temos para com a sociedade.

E como pequeno empresário, amanha poderei escrever sobre os “subsídios” que pretendem transformar-nos em mensageiros “ de um divino futuro” para os citadinos de Maputo. Aguardem. Sou pequeno empresário.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

la famba bicha 26 - manifestacoes em maputo

Prezado Chará*

Estou de férias e vou reflectindo sobre as manifestações "num estilo" preguiça, lendo aquilo que não me rouba tempo e aquilo que durante a jornada de trabalho não leio. Por isso o meu primeiro comentário foi muito no sentido de "apadrinhar" a reflexão do Fanhana. O problema do pensamento “via rápida” está na forma ousada de apresentarmos "o final" das coisas e não "o processo" das coisas. Concordo consigo que parti para uma reflexão conclusiva, errei e devia ter começado de outra forma: pelas perguntas, que conduzem-nos a entender o processo.
Chará gozando, por causa das férias, não vou poder reflectir nas perguntas, com o método necessário, mas não poderia deixar de levantar aqui alguns pontos:

1- Existe aqui uma crise de (re) adaptação, que resulta de contradições interpretativas "do espaço e tempo" no processo de transferência da "visão e organização social" dos moçambicanos, do meio rural para o meio urbano, da aldeia para a cidade, da relação com o vizinho para a relação com repartição pública, de um sistema produtivo e de solidariedade familiar para um sistema produtivo anónimo e individualista, etc. Parece-me que ignorar os fenómenos de transição ou os espaços de negociação pode resultar em conflito identitário, na aceitação da ideia do futuro.

2- Dentro do espaço “identitário moçambicano" de ponto de vista de desenvolvimento social e económico, como identificar a ideia do progresso e ou da modernidade. Estes dois conceitos nunca chegaram a definir uma "coisa" concreta em muitas sociedades, nós aqui deste lado do "sul do hemisfério" foi nos apresentado o que seria transformar as nossas massas populares agrárias para o nível de uma "indústria progressiva". Como se faz isso? Quem faz isso? A ideia do progresso e ou da modernidade parece que ainda não foi melhor formulada dentro da nossa sociedade.

3- A ideia do progresso e ou de modernidade requer uma “visita critica” às nossas certezas e crenças. Problematizar as coisas, a nossa cultura, organização social, a ideia do "espaço moçambicano", sistema político, as nossas ideologias, a nossa capacidade técnica, vontade, gostos,...

4 - Parece-me que por um lado, Moçambique soube usar a "vontade" como uma condição primária para o progresso. Tivemos esta forma “brilhante” de apresentar aos outros este nosso "capital de vontade" e em troca recebemos técnicas, estratégias, políticas, fórmulas,...sem nenhum questionamento crítico. A questão da integração regional revela essa cultura de "capitalizar a vontade".

5 - O que “isto” tem haver com as manifestações? Não sei!. Penso que Moçambique tem muitos problemas, teve no passado e tem-nos agora. Tal como a vontade de ontem e a vontade de hoje. De que temos problemas todos concordamos, agora se esses problemas estão melhor identificados e formulados, parece que todos temos "a vontade" de dizer que sim. Quer a "vontade" e os problemas atingiram um ponto crítico, exacerbados pela problemática maneira como "capitalizamo-los" sem os problematizar.

6 - A incapacidade de resolver os problemas, mesmo com tanta vontade que temos, reside na razão de que os moçambicanos, de todas as classes sociais, tem falta de conhecimento e capacidade para compreender as causas e produzir soluções para os problemas sociais. Chará, tento há vários anos encontrar nos vários relatórios produzidos sobre as causas da pobreza em Moçambique, um denominador comum. Nada, não há consenso sobre a prioridade dos nossos problemas. A prioridade "fabrica-se" de acordo com a tabela da "vontade" e da disposição daqueles que nos "ajudam".

7- E parece-me que os critérios para identificar a prioridade dos problemas do país, esta inserido no contexto das transições do espaço e tempo, referidos no primeiro ponto. Temos uma dificuldade enorme, em distinguir problemas pessoais de problemas sociais. Encontrar uma linha divisória entre estes dois "mundos" só pode ser possível se desenvolvermos um pensamento critico. Encontrar a linha divisória destes dois mundos ajuda-nos a encontrar a fotografia do país, reflectir Moçambique. E não deve ser difícil encontrar na nossa sociedade problemas pessoais que tentamos transformá-los em problemas sociais de todo Moçambique, em todas classes sociais.

8 – Chará já me alonguei, e para terminar vou pegar nas manifestações em Maputo. O chapa100 tem muita "arrogância": encurta rotas sem prévio aviso, não respeita a lotação de passageiros, corta prioridade, não aceita nenhum conselho do passageiro, não respeita sinal de trânsito, música alta até onde viajam pessoas doentes, etc. Para mim isto caracteriza um arrogante, ele só existe porque os interesses dele existem. Mas esta arrogância "existe" numa estrutura político-administrativa que tolera isso. O chapa100 simboliza "um poder autoritário". O outro ponto que precisamos reflectir tem haver com os símbolos da modernidade e do progresso: em muitas zonas periféricas de Maputo, o chapa100 faz esta ligação entre a "periferia de tudo" e o "centro de tudo", entre o velho e o moderno, entre os que tem e os que não tem, entre os problemas pessoais e os problemas sociais de Maputo, entre o mundo abstracto (vontade) e o mundo concreto (realização). Existem bairros onde não existe polícia, posto médico, escola, água potável, etc. Mas lá passa o chapa100. Existem bairros onde as vias parecem intransitáveis mas lá passa o chapa100.

9 – Chará, para mim estas manifestações obrigam-me a fazer mais perguntas. Só que não fiquei assustado com as manifestações, mas sim com reacções, nos vários blogues e fóruns na internet. As reacções revelam uma apetência profunda em "capitalizar vontades" sem problematizar mais os nossos problemas. O preço do petróleo e do trigo subiu no mercado, e vai continuar a subir. Tal como amanha vai subir o preço do arroz, do papel, do ferro, da água, da madeira, do algodão, da electricidade, etc. Os países mais desenvolvidos tem um "sistema de almofadas", que minimiza o impacto social, porque eles tem instrumentos fiscais e monetários a dispor, e uma reserva económica robusta. Moçambique é um pais pobre, com uma elite politica-empresarial tecnicamente mal preparada, com políticas e estratégias macroeconómicas dependentes do "bem intencionado" parceiro internacional. Tudo isto parece complicado Chará, e deve ser muito complicado mesmo. Há muitas décadas atrás uns achavam que a esta altura estaríamos a viver o progresso e a modernidade na sua plenitude no mundo. enganaram-se? Não sei.

Entao chará, qual é a sua ideia?
* Jorge Nguele, em relacao ao debate sobre manifestacoes no mocambiqueonline.

terça-feira, janeiro 29, 2008

la famba bicha

O chapa100 resolveu "estacionar" por alguns dias, para uma revisao completa do chapa100 e oferecer um descanso merecido ao seu motorista, voltarei brevemente para dar inicio a uma nova viagem, com uma nova tarifa e talvez com novas rotas. Prezados leitores e bloguistas tenham uma boa semana de trabalho.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

la famba bicha 25

Na sociedade complexa em que vivemos, somos obrigados a procurar caminhos mais fáceis para escapar das teias sociais e economicas que promovem a opressão. O caminho e as opções que escolhemos não resultam de um debate mais-ou-menos inclusivo. Por debate inclusivo entendo ser aquele (debate) que apresenta razões validas para intervir. O ministro da saúde faz das visitas relâmpago, a única solução politica para o mau atendimento hospitalar. (veja qui no blog de patricio langa)

Este exercício do ministro empurra-nos para a questão das perguntas simples, que resultam em respostas simples. Por exemplo, seguindo a lógica da solução relâmpago podíamos chegar a conclusão de que em Moçambique as pessoas adoecem de malária, apanham sífilis, embriagam-se e envolvem-se em escaramuças que resultam em mortes, que a gravidez na adolescência, resulta do mau atendimento hospitalar.
Como foi que chegamos a esta conclusão de que o problema da saúde em Moçambique resulta do mau atendimento hospitalar? E o que entendemos por atendimento hospital? A boa educação do pessoal de saúde ou a providência de cuidados hospitalares com um standard mínimo de serviços clínicos?

A resposta para estas questões significaria negar as perguntas simples. Em sociedades complexas os problemas sociais são ampliados pela ineficiência de serviços públicos e também pela “herança” política de um estado paternalista, a acção governativa devia preocupar-se com a formulação de perguntas sobre a legitimidade e a eficiência dos meios escolhidos para atingir os fins ou metas politicas ambicionadas. (assunto em debate no blog do Elisio Macamo).


Este exercício de visitas relâmpago, três anos passados, não se mostra como o meio/instrumento eficiente e legitimo para resolver os problemas de que o sistema nacional de saúde enferma. Este exercício do ministro, permitiu acima de tudo identificar que os problemas que a saúde enfrenta são estruturais, devido a sua repetição sistematica (entenda-se repititividade) e a forma regular como algumas práticas são “toleráveis” em quase todas as unidades de saúde do pais. O papel que esperamos daqueles que tem responsabilidade política para que estes problemas acima identificados sejam resolvidos não é de agir de forma histérica e incontestável, mas formular perguntas que hierarcamente permitem devolver a responsabilidade política e técnico-profissional a aqueles que são pagos e treinados para que o sistema nacional de saúde funcione de forma regular e eficiente para o bem da saúde do cidadão.

Existe aqui um ponto de manipulação perigoso, que precisamos ter cuidado quando lidamos com serviços públicos, especialmente a saúde. Partir do pressuposto de que todo o utente do serviço de saúde, tem um conhecimento activo sobre a enfermidade e procedimentos do diagnóstico clínico que são efectuados nas unidades hospitalares pode revelar-se falso e contraproducente, porque mais do que um exercício racional de empoderar o utente revela-se como um apelo emocional a aqueles que esperam dos quadros da saúde um serviço profissional e tecnicamente satisfatório. A satisfação do utente, com muita probalidade, fica visível só no momento em que ele distancia-se da condição de doente e por meio disso fica socialmente e ontologicamente “saudável”.

Então, em minha humilde opiniao, são várias as perguntas que a saúde precisa fazer. Fazer essas perguntas não significa transferir a responsabilidade política de alguns para a ineficiência técnica de alguns profissionais. Significa que as próximas perguntas devem evitar o apelo aos dilemas sociais e ao chamamento emocional que ate agora tem caracterizado o “exercício relâmpago” mas sim o apelo a perguntas que possibilitam uma análise crítica e que despertem confidencialidade em soluções racionais a curto e longo prazo.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

la famba bicha 23 - perguntar para perguntar




1 - As crianças aprendem sobre o mundo e seus fenómenos perguntando. Para elas tudo começa com uma pergunta. Quando falta-lhes palavras para questionar , usam as mãos para satisfazerem a sua curiosidade. Para elas as perguntas devem ter uma resposta, mesmo não estando preparadas para compreender as premissas e a plausibilidade dos nossos argumentos.
AS crianças, poucas vezes, justificam o seu constante exercicio de perguntar com respostas tais como: so perguntei por perguntar. Um pais sem perguntas é obra dos proprios cidadãos que negam a natureza das perguntas que os fez adultos.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

os habitantes da cidade 12

As folhas     amaciam
Provocam a mistura
O contorno da avenida
Asfalto que se pisa
Odor que se sente.
As folhas    nao se importam
Tempesteadas no alcatrão
Correm o esgoto
Escutam as serenatas        os divórcios do tempo.
Correm
Voam
Correm    correm
Indagam os passos rápidos
As ocasiões cochichadas
No sussuro latente do vizinho embriagado.
Às folhas         pergunta-se
Narra-se a perigrinacao do fiel amante
Dos escritos bocabertos do escrivão
E a voz do politico as resguardam
No tempo da aurora.
As folhas      sabem          questionam o soluço
Sabem da rima
Dos seios da Joana         minha companheira.
Em passos
Apressados                   destimidos
Correm
Voam
Correm    correm          as folhas
Lentamento chegam
Anunciam o alcoice
Aos amavios desta tela.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

os habitantes da cidade 7



" Eu quero conhecer-te melhor,

minha África profunda e imortal...

Quero descobrir-te para alem

do mero e estafado azul

do teu céu transparente e tropical, para alem dos lugares

comuns

com que te disfarçam aqueles que nao te amam

e em ti vêem apenas degrau a mais para escalar!".

Excertos do Poema com o titulo "quero conhecer-te África", de Noemia de Sousa - Sangue Negro. Maputo: AEMO, 2001).

sexta-feira, janeiro 18, 2008

os habitantes da cidade 8

Um dos livros mais emocionantes na literatura Mocambicana é " O regresso do morto", do escritor e professor Suleiman Cassamo. Quando leio sobre o Quenia, sou obrigado a fazer uma viagem aos textos deste escritor, pela dose de humor e ficcao que este escritor atribui as nossas relacoes humanas no quotidiano de fazer um pais. E o Quenia, vai regressar "morto"? ou vive como alguem que foi esquecido pelo tempo e que deixou-se esquecer na distancia da historia e de busca de sobrevivencia?. Magaiça nao sao so as pessoas, mas os paises tambem.
Leia aqui sobre o tema da actualidade em Africa: Quenia. texto de Mukoma Wa Ngugi, publicado na revista chimurenga, onde colaboro ha muitos anos.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

la famba bicha 21 - perguntar para perguntar



"Cheias no centro do país Consumou-se o drama!

O PROGNÓSTICO meteorológico efectuado em Setembro pela SARCOF, uma entidade regional de análise e previsão do tempo, já antevia para a época chuvosa 2007/2008 a ocorrência, no geral, de chuvas acima do normal entre Outubro e Março. Para o caso do nosso país, este indicativo era incidente para o centro durante este período e para Maputo, o norte durante o presente trimestre". Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2008:: Notícias

Quantas perguntas deviam ser construidas com este lead? alguem tem respostas para tantas duvidas?  porque tudo faz parte deste exercicio de perguntar por perguntar, um pais afunda-se, na leveza das perguntas.  

terça-feira, janeiro 15, 2008

la famba bicha 20 - perguntar para perguntar

Em qualquer sociedade a busca de soluções para problemas sociais, devia começar pelas perguntas. As perguntas mais adequadas deviam ser aquelas que ajudam-nos a formular melhor a pergunta. Podíamos chamar a esse exercício de perguntar por perguntar. No quotidiano, na conversa despropositada, somos confrontados com estas perguntas por perguntar. Quando pergunto aos meus colegas o motivo para algumas perguntas a mim dirigidas, respondem-me evasivamente: só perguntei por perguntar.

Existe aqui uma explicação para este exercício de perguntar por perguntar? Será mesmo um exercício de aperfeiçoar a pergunta? Ou será que ainda não temos a certeza da dúvida que nos apoquenta? Será que para formular uma pergunta temos que ter uma dúvida? E essa dúvida precisa de perguntas para ser exteriorizada?

Alguns amigos quando abordados com esta questão, na sua maioria foram unânimes em dizer que ninguém pergunta só por perguntar. Quem faz perguntas quer algo, se não, há gato escondido. Mas respondo que talvez as minhas respostas não foram conclusivas, por isso formularam outras perguntas/duvidas na "cabeça" do indivíduo perguntador. Então há gato escondido, não na resposta do indivíduo perguntador, mas no exercício que nos leva a formular uma pergunta para ser uma pergunta.

sábado, janeiro 12, 2008

os habitantes da cidade 5




A nossa relação com o meio ambiente, é influenciada na sua maioria por contos, romances, histórias, documentários e filmes que “consumimos” no dia dia. A concepção sobre o mundo animal foi “elaborada” no jardim Zoológico de Maputo, ali no Bairro de Jardim. O “macaco João” foi o melhor interlocutor desta descoberta do mundo animal, com a sua “anatomia” e espectáculo aprendi a desvendar minhas crenças com dezenas de colegas meus da escola primária. Com a descoberta do “macaco João” o nosso critério de avaliação comportamento a social era logo denominado de “macaquito João”, o indisciplinado e palhaço.
Mas do que ser um palhaço e indisciplinado o macaco joão era a personagem que habitava o nosso imaginário sobre o outro mundo, da selva. A selva e a floresta sem o “macaco joão” não eram lugares engraçados, que animam. “O macaco joão”, mesmo enjaulado, fazia piruetas e saltos mortais, que a nós outros (humanos) eram proibidos e severamente punidos na escola. Imitar o macaco João era “dar liberdade” aos nossos movimentos e categoricamente ir contra os bons “mandamentos” da disciplina escolar.

Ainda na adolescência assisti ao filme King Kong (1933), que foi um grande fenómeno cinematográfico, inspirado no primeiro “conhecimento” humano sobre o gorila. King Kong não é mais do que uma ampliação exagerada de um gorila, apresentado como um “bicho” e não animal. Uma imagem que foi muitas vezes documentada por vários exploradores das florestas africanas. A maioria dos escritos dos exploradores, o gorila é descrito como um “animal” de se ter medo e respeito. E como sabem os escritos da maioria destes exploradores respondiam a impulsos cognitivos e emocionais, onde os exageros emocionais foram uma constante que acabaram por influenciar o método e investigação científica, na exploração de África. Na base desses exageros a imagem do gorila foi exportada como um animal carnívoro, predador.
Um desses exageros, era a famosa história de que o gorila teria violado sexualmente a companheira do “bom intencionado explorador”, para a compaixão do mundo e a diabolizacão do gorila. O primeiro filme King Kong é produzido na sua maioria na base destes exageros, que também passaram a questionar as minhas certezas sobre o “macaco João”.

Na última produção cinematográfica do king Kong (2005) já somos confrontados com outro argumento que não tem como objectivo mostrar não só os exageros emocionais do “explorador” mas sim a presenca de um apelo emocional aos espectadores. E esta nova produção aparece numa altura em que tenho a minha anterior crenca desmontada e o “macaco joão” morto.
Mas o exagero emocional do “bem-intencionado” explorador teve consequências trágicas não só na exploração cinematográfica do gorila como também no tratamento que foi reservado a este “animal” em algumas sociedades. Documenta-se que o primeiro gorila que chegou aos Estados Unidos da América foi “alimentado” com base numa dieta obrigatória de carne vermelha fresca, afinal um “bicho” tão feio como este só podia ser carnívoro e predador. Não tinham informação de que este “animal” é vegetariano, assim como milhões de “humanos” que hoje identificam-se como vegetarianos.

Então já devem imaginar como foram tratados os primeiros “habitantes” gorilas nos E.U.A., muitos morreram de complicações estomacais e outras complicações de saúde provocadas pela diabolizacão documentada pelos “exploradores” e da influencia da documentação cinematográfica no imaginário de muita gente sobre o meio selvagem e seus habitantes.
O gorila, na foto que acompanha este texto, obrigou-me a revisitar a memória que tinha do “macaco joão” e explorar a forma clássica como o mundo de cinema influência nossas crenças sobre os outros. Assim funcionam os fantasmas de Ruanda.

terça-feira, janeiro 08, 2008

amor de zinco 7

A água desce
cresce
aos poucos levanta
entra
dentro do ventre
entre
as paredes do útero:
outro
dévio da vida,
ainda
desce percorre
corre.
Devagar o óvulo
tolo
engrandece o ventre
adere
ao convívio da célula
que pula
e junto da água
desagua
do ventre outro espaço
possesso,
ouve-se o eclampse
é outra narrativa que se
aborta.



In jorge matine, "Abutres de Amor" ( Ed. Moura pinto, porto, 1999)

segunda-feira, janeiro 07, 2008

os habitantes da cidade 4

Em Kigali

Existem países e cidades em que viajamos devagar, porque não podemos caminhar rápido, a memória impede-nos. Dizem que a história não só usa livros como mensageiros, mas também usa fantasmas. Os fantasmas nasceram da história, como uma lenda para lembrar aos homens do seu passado, não saem da furna só para pregar-nos um susto mas para recordar das nossas obrigações com o futuro, os vivos. Do fantasma aprendemos a ser videntes, adivinhos e porque não curandeiros. Neste pais, viajo devagar, porque perscruto o fantasma que acena, do balão alto como uma gávea num navio afundando, para que sempre aprenda a esgrimir os pergaminhos da história.

Lendo J.Craveirinha no seu Babalaze das Hienas(1997, aemo):

Forrobodó

Ao forrobodó dos tiroteios
E chispar das catanas
Eles devem ter gritado.

Da viatura em chamas
O eco dormiu nos braços do asfalto
Seu mais pesado sono.

Do forrobodó um quase nada:

Apenas o acre odor dos restos
No tempo grelhado.

Assim escreveu sobre nós, este poeta da Mafalala, aqui em Kigali fico pensando o que teria registado poeticamente Craveirinha para conversar com estes fantasmas.

domingo, janeiro 06, 2008

2008 e a critica: O Cromatismo do Pensamento



As vezes, somos confrontados com situações que desafiam a capacidade argumentativa, que justificam as opções que tomamos. Em nome da verdade, esses confrontos “argumentativos” tornaram-se mais religiosos e fanaticamente elaborados, que deitam a baixo qualquer que seja a outra verdade que possa existir.

Herdamos da História esta maneira de analisar os nossos argumentos com o princípio de “preto ou branco”. E a nossa esfera pública foi educada dentro deste princípio histórico de procura de pragmatismo para a acção colectiva. E de acordo com os vários comentários que tenho assistido na imprensa e nos vários palcos de debate, parece que a nossa esfera pública precisa de sair deste princípio “bi-color” de argumentação para um princípio “multi-color”, se quisermos transformar os espaços de debate e de exercício de cidadania mais inclusivo.
Importa referir que esta herança histórica de interpretação de fenómenos sociais, económicos, e ideológicos, no pragmatismo de “preto ou branco”, foi muitas vezes imposta pela ordem mundial durante muitos anos. Até aproximadamente 19 anos atrás o mundo estava dividido em blocos económicos, sociais e ideológicos, traduzidos numa fórmula simples de “nós” e os “outros”.

Que características, a nossa esfera pública, tem desta visão de “preto ou branco”?

Os factos históricos permitem identificar dois períodos distintos de organização social, económica e ideológica da sociedade. O período que vai da independência até a reforma constitucional de 1990 e o período que vai das primeiras eleições multipartidárias até ao presente. O que mais importa aqui, é analisar a transição de um período para outro, a mudança de valores, das teses ideológicas, a noção do estado e de governo, da relação entre o cidadão e a sociedade, do espaço público e da crítica, etc. Mas de uma forma dogmática a necessidade de construir e identificar inimigos ficou. E foi patente verificar como esta herança ficou entre nós, quando analisamos os pronunciamentos e as acções dos actores políticos e não só, durante a primeira campanha eleitoral e a convivência social e económica dos moçambicanos no espaço público durante o período que se seguiu às primeiras eleições gerais. Na esfera pública este fenómeno foi notável na maneira como eram categorizadas as nossas posições públicas sobre qualquer que seja o assunto, se não concordasse com políticas do governo significava que estava ligado à oposição. A esfera pública estava e ainda está influenciada por este princípio de “tomar posição” e não da capacidade de argumentar e debater. Uma situação, no mínimo absurda.

E como resultado desta “cultura ideológica” de tomar posições, assistimos hoje este debate dogmático sobre a posição que um académico deve tomar no debate público e no exercício da ciência. E parece-me que as escolhas que são oferecidas por alguns “iluminados” intelectuais e académicos baseiam-se no princípio do “preto ou branco”. O princípio do “preto ou branco” resulta desta capacidade argumentativa de que o mundo é feito de pragmatismos e posições. O mesmo aplica-se a esta visão dogmática para categorizar o exercício intelectual como sendo da esquerda ou da direita.

Esta maneira de categorizar o pensamento, a ideia, o sonho, a vida, a palavra, dos moçambicanos é muito injusta e antiquada. Não só periga o espaço de debate, como também o futuro do país. A ideia do avanço tecnológico de substituir a imagem a preto e branco para uma imagem colorida (multicolor) no aparelho televisor, resulta desta vontade humana em reconhecer a diversidade e pluralidade das nossas acções e escolhas (por exemplo: nas cores).

Quem não gosta de ver os documentários a preto e branco sobre Samora Machel ou Eduardo Mondlane? Acho que todos queremos ver durante um tempo, mas depois queremos ver os documentários multicolores do “Ver Mocambique”. E todo este exercício traduz-se no debate público. Ver as coisas no princípio preto ou branco traduz-se no esquema “nós” versus “nossos inimigos”, no debate sobre a coisa pública. A intolerância que alguns tem para com: a sociedade civil; a classe política; a transparência em políticas públicas; a protecção ao meio ambiente; a oposição; o governo; o activismo académico, a associação de profissionais, resulta de um pensamento dogmático que impede a livre participação dos moçambicanos no “mercado de ideias”.

E mesmo aqueles que preferem o princípio de “preto ou branco” na compreensão das relações sociais, académicas e económicas dos moçambicanos, tem que saber que não detêm o monopólio do espaço público. Porque esse princípio serve a uma fórmula objectiva e subjectiva de interpretar o mundo, e não tem nada de pragmatismo e metódico, tal como pretendem fazer-nos acreditar. E mais do que promover uma cultura de debate e crítica, promove-se uma “crítica-fobia” nos moçambicanos.

Existe aqui um ponto crucial que vai levar muito tempo para ser compreendido e documentado. Este ponto relaciona-se com a nossa história, porque os interesses de Moçambique na formulação de uma ideologia não nos levam a lado algum. A História mostrou-nos que o interesse dos moçambicanos não pode ser:
1) construído na base de ideologias que mal estudamos e conhecemos;
2) com base em fundamentos académicos que excluem o direito ao exercício da cidadania;
3) negando o desafio da modernidade que está em reconhecer o papel importante da diversidade e da interdisciplinaridade do campo cientifico e
4) a complexidade das instituições e dos problemas sociais e económicos servem de oportunidade para continuamente produzir ideias e crítica no espaço público.

A mudança da imagem a preto e branco para a imagem colorida hoje é reconhecida como um dos importantes símbolos da modernidade. E isto aplica-se a nossa sociedade em relação aos dois períodos históricos acima referenciados. Negar a modernidade no espaço público, significa negar a complexidade e aceitar o mundo de ideias simples “preto ou branco”. E esta maneira dogmática de pensar no meio académico, no espaço público, na classe política, na sociedade civil; poderá ser fatal para nós como um país pobre, num mundo político e economicamente complexo. Porque a realidade não é só multicolor é também de cabeças duras.

terça-feira, janeiro 01, 2008

2008 e a critica .

1- O ano já tem muito de velho. Como bem dizem os Moçambicanos: camarão que dorme a onda leva. E ninguém ousa dormir, porque a vida não deixa, o coração bombeia, o cérebro "enche-se" de oxigénio e pensa. E essa magica bolha de oxigénio, quem diria, que do "ar" que respiramos e inspiramos pensamos na mais íntima, bela e complicada "coisa" para entreter nossa preguiça do primeiro dia do ano. O ano já tem muito de velho. Acordamos para um novo ano e já somos cidadãos de uma integração regional, mas ainda não sabemos se estamos integrados pela boca ou pelo nariz. Afinal a integração regional depende de papilas gustativas na língua e de receptores de odores no olfacto. E não é uma questão de gostos e cheiros?

2- E a critica fica “aonde” no primeiro dia do ano? Pensava com a minha preguiça. “A critica é importante” parece que ouvi isto varias vezes. Não no mesmo lugar. Os lugares mudam-se, mas fica-se com o hábito. Dentro destas belas reflexões que tenho saboreado na blogsfera Moçambicana, descobri que tudo não passa de gostos e cheiros. A crítica é isso, saber reflectir e falar dos teus cheiros e gostos. A medicina ensinou-me que na superfície da língua existem dezenas de papilas gustativas, cujas células sensoriais percebem os quatro sabores primários: 1) amargo, (2) azedo ou ácido, (3) salgado e (4) doce. E quando misturados produzem sabores distintos. Assim, aprendi na blogsfera, com ajuda da língua, a classificar as várias reflexões usando o esquema de quatro sabores primários.

3 – Tudo é uma questão de sabores e cheiros. Estamos integrados. E na crítica e no debate. Resolvi, reflectir sobre a ideologia dos sabores e cheiros. Sim! Porque não? Afinal a esquerda e ou a direita também resultam desta aprendizagem para categorizar sabores e cheiros. Como humanos podemos detectar 20 000 odores diferentes. A maneira com que cultivamos esses odores, pode conduzir-nos a varias categorizações, que não cabem só na categoria de esquerda ou de direita. Mas deve haver ai um segredo, como animais. Porque somos apesar de andarmos só com duas patas, animais. Estes utilizam esta capacidade do olfacto para se relacionarem com o meio e comunicarem com outros seres vivos, podem emitir vários sinais para deixar rastos, marcar território, definir hierarquia social, o sexo ou a disponibilidade de reprodução. Ser de esquerda ou de direita para animais não passa de uma orientação, de espaço do que de ideologia.

4 – Nos que crescemos num subúrbio, onde o nosso território, ou hierarquia social, estava delimitado por um zinco, descobrimos que os cheiros pertencem a muitos, mas o sabor a alguns. Aprendemos com o olfacto, a mapear o mundo a nossa volta. O cheiro que saia da casa da/o vizinha/o permitia-nos definir a hierarquia social, a disponibilidade emocional e financeira do vizinho. Com o cheiro podia instrumentalmente categoriza-los em “folgados” e em “desenrascados”. E na base de cheiros muitos tornaram-se videntes, feiticeiros, “os que tem”, e “os que não tem”.

5- Estamos integrados. A ideologia é isso. Estar ligado a “isso”. Existem varias explicações e definições de ideologia. A esquerda ou direita, não passam de uma busca constante a “isso”. “Isso” ninguém vai-te explicar direito o que significa, porque ninguém sabe, faz parte dos 20 000 odores diferentes que tanto nos humanos e animas mamíferos e insectos procuramos. Uma bússola, para orientar nosso mundo, conhecer melhor a tua ou teu vizinha/o, se ela é “folgada” ou “desenrascada”.

6- Os meus companheiros da blogsfera seleccionarão figuras do ano, “fiquei” em pânico, porque não tenho critérios credíveis para seleccionar a figura do ano. Mandei os critérios a... e resolvi faze-lo também. Eis os nomeados: Carlos Serra (rebenta minas! Faz-me lembrar os militares-condutores de camiões militares no tempo de guerra civil, não havia tempo para aprender inversao de marcha com os famosos “madjedjes”, para frente é que era o caminho, o guru do estudo do social em Moçambique); Elísio Macamo (ser académico e intelectual não é brincadeira não! Com carapau ou repolho, ou frango do Brasil, ciência é ciência); Patrício Langa (para tudo precisamos de ser irreverentes e dispostos para o debate, um dos melhores jovens intelectuais e académicos que Moçambique tem); Ilídio Macia (um dos melhores curandeiros da modernidade e com mais actualizações o pais sai a ganhar); Egídio Vaz (o curandeiro da modernidade numero 1, o melhor activista bloguista a moçambicana); Bayano Valy ( o curandeiro da modernidade numero 2, afinal a liberdade de expressão não e tudo, precisa-se de jornalismo serio); Eugenio Chimbutana (um dos melhores curandeiros da modernidade, o melhor suplemento económico da blogsfera); Ouri pota (o cafe cultural na blogsfera, depois de Marcelo Panguana, Nataniel Ngomane, Felimone Meigos, Guilherme Mussane, Rogério Manjate, aqui esta um jornalismo cultural promissor); Stayleir Marroquim (o curandeiro da modernidade numero 4, o legislador que se cuide, existe gente aqui que pensa e argumenta); Basilio Muhate (com mocambiqueonline, uma contribuição valiosa ao debate de ideias e convívio de diferenças), Opais online e canal de Moçambique (o melhor que se fez em edição online de noticias); Rogerio sitoe (pelas suas opiniões na rubrica conjunturas, no jornal noticias); Radio Moçambique - emissores provinciais (pelo serviço que presta as comunidades rurais, com informação e entretenimento em línguas nacionais, um bem publico precioso e indispensável para o pais); Café-bar Gil Vicente e núcleo de arte (o ponto de referencia das artes em Maputo); Parque nacional das Quirimbas (o turismo comunitário esta a mudar a vida e a face da ilha do IBO, um conceito de turismo que pode mudar a vida de muitos moçambicanos); Banda kakana (como banda de afro-jazz, sempre brindou-nos com o melhor que se produz de talento jovem na praça); Mutumbela Gogo (voltou a ser o santuário do bom teatro); Desportivo de Maputo (o melhor clube da actualidade, um santuário de talentos, com uma das  melhores escola de jovens); Liga dos direitos Humanos (um trabalho excelente de assistência jurídica e paralegal a moçambicanos nas comunidades urbana e periurbana de Moçambique, uma equipe extraordinária de jovens profissionais); fundação agha khan (um trabalho excelente de apoio a centros de saúde e escolas primarias na melhoria da qualidade de serviços em alguns distritos de Cabo Delgado);

8 – e o ano comeca, feliz novo ano a todos leitores do chapa100.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

la famba bicha 20 - pha karingana 2

1- Ainda nesta senda de debate e observações sobre a moçambicanidade e seus contornos no imaginário do moçambicano, convido os leitores do chapa100 a deliciarem-se deste texto retirado neste blogue.

2- A primazia do indivíduo sobrevive na construção do “outro”, na busca de lugares comuns, usando os estímulos do emocional ou do cognitivo. No último post falávamos da competência, da sua importância, para lidar-mos com o diálogo do mundo social. A maioria das competências por nos usadas resultam da convivência social num espaço cultural determinado.
O espaço cultural foi e é sempre polémico. As fronteiras da cultura delimitam os espaços de negociação da nossa visão do mundo, as vezes com mais intensidade ditadora, outras com mais diálogo democrático. Como enquandrar o exercício de desabafar no espaço cultural moçambicano? Existe uma condição cultural para o desabafo?

Existem aqui questões culturais, relacionadas com o ritual do uso da língua e a cultura acústica que acompanha nosso pensamento dialogante, que podem permitir formular melhor as perguntas acima referenciadas.
Li já faz muito tempo um ensaio de Barthes “ The rethoric of the image” (1984) que foi uma grande contribuição para o estudo da significacao da imagem fotográfica na construção do “outro”. Barthes estuda no seu ensaio os processos internos de significação e trás várias questões em relação ao diálogo entre o nível denotativo e nível conotativo. O desabafo não sendo uma imagem fotográfica, como nos sabemos, não deixa de sofrer a mesma influência denotativa ou conotativa por parte de quem presencia um desabafo.
A busca do nível denotativo no desabafo seria procurar a sua razão e função objectiva, analisando os elementos básicos que o definem como desabafo. Entao que razoes objectivas sao essas que podemos identificar fora do ritual da lingua e da cultura acustica, que permitem determinar qual dos desabafos é bom ou mau.