segunda-feira, outubro 01, 2007

a andorinha do Mugabe

1 - quando menino caçava andorinhas. melhor tentava caçar. comi tantas andorinhas. dos que conseguiam caçar. sempre fui o menos sortudo com a fisga. eu menino de chamanculo, eles refugiados de guerra da renamo, vindos de vilankulo. a minha esperteza estava no português que conhecia para enganar o guarda da escola primaria da Munhuana, para pegar a andorinha no telhado. assim foi, quase uma infância inteira.
2 - foi com a malta de caçar andorinha que descobriram-me para desportista. não sei de onde surgiu a ideia, o boato ou a crença, de que uma andorinha come-se correndo e sem olhar para trás. assim com a minha gang fazíamos um sprint de mais de 400 metros mastigando a carne assada, de andorinha. nunca questionamos o porque do ritual. afinal em vilanculos era assim. na maderazinco de chamanculo era assim. e assim fui descoberto pelo hoje Cameraman da TVM, antigo treinador da escola de jogadores do clube Muhafil.
3 - e a crença ocupou outros espaços de afirmação. justifiquei que seria convocado para a equipa principal se continuasse a correr e mastigando andorinha. nunca questionei se a corrida e o domínio da bola estava na técnica e nos treinos. era a adolescência das coisas, a crenca da invencibilidade e da perfeicao estava assente da magica forma de uma andorinha que explorava o ceu e o horizonte dos espacos nunca por nos conhecidos. joguei mal ou bem, a andorinha funcionou e disfuncionou, como qualquer outra crença.
4 - fui para o desportivo, afinal era ali no equipamento andorinha que podia ganhar. a crença ganhava outros valores. era preciso ter ambição. o técnico Uzaras, desmistificou a andorinha: "voce corre muito e joga como uma mulher". desde quando uma andorinha joga como uma mulher? será que já não mastigo bem a andorinha? meu amigo de vilanculos segredou-me que teriamos que correr de costas, ao estilo marcha-atras, e fomos correr nos eucaliptos, hoje edifícios da TVM e companhia mata-eucaliptos-distroi-barreiras.
5 - correndo e fintando eucaliptos, somos descobertos pelo mister do maxaquene. a andorinha não tinha clube de preferência pelos vistos. assim ficamos inscritos na equipe de atletismo do maxaquene. como explicar ao mister que só podemos correr mastigando uma andorinha assada? como explicar que correndo as voltas na pista de atletismo, no campo de maxaquene, nao satisfaz a nossa crença?
6 - esta "lembrança" de uma infância quase infalível vem aproposito do debate sobre o Mugabe e Zimbabwe. deve existir uma andorinha na crença do mugabe sobre a maratona politica. mastigando sentado, para livrar-nos de rugas e de pensar o futuro. a andorinha foi o machimbombo de muitas paragens, a viagem dos sonhos mastigados numa crença de adolescente. para mugabe a crença de um poder infalível, coexiste numa crença de adulto, mastigando um pais numa corrida ao faz-de-contas.

segunda-feira, setembro 10, 2007

la famba bicha 10


os ultimos 3 meses tem sido uma batalha para manter o blog. mas nao ha razoes para alarmes, assim voltamos nos com o mesmo barulho de sempre. no encontro com os blogistas realizado no SNJ, ficaram tarefas por cumprir. como sempre sao tarefas. faltam elos para poderem rolar, para fugir da linguagem desenvolvimentista de termos de referencia. faltava escalar tres distritos, montepuez, chiure e mandimba, o pais de mim (eduardo white). o chapa100 tem esta obrigatoriedade, visitar os escondidos mundos do metical. so apartir de 26 de setembro voltarei a actividade de docencia, com a obrigatoriedade de escrever, mesmo com xibalo. neste momento aproveitamos esta coisa de trabalho de campo e consultorias para beliscar este pais de norte a sul. como escreveu armando artur somos estrangeiros de nos proprios, nesta terra de algodao e oiro ( raul Honwana).
nesta corrida pelo pais tres coisas destacam nosso pais: as bichas do BIM, A rede da telefonia movel que brinca ao esconde-espreita-esconde e liga-mais-tarde, os camionistas de madeira assaltando os distritos e amontoando madeira nos postos de controle.
gostaria de pedir ajuda aqui dos confrades blogistas, em especial ao ilidio macia, que direito tem uma empresa em fazer o pagamento do meu salario atraves do BIM? eu como trabalhador tenho o direiro de escolher a forma de pagamento do meu salario pelo trabalho realizado? posso escolher o banco que quero? quem paga pelas horas que dispenso nas bichas do BIM? como posso justificar uma falta ou atraso ao local trabalho devido ao tempo perdido na bicha do BIM para levantar meu ordenado? os prejuizos decorrentes do atraso na transferencia bancaria para fechar um negocio quem assume, o banco ou a bicha?
na cidade de XAI-XAI os pacientes pediam que eu interviesse na farmacia para obter vale, para levantar medicamentos, porque nao conseguiam levantar metical no banco. recebiamos casos de desmaios e mal estar de pessoas devido a longa bicha debaixo de sol. de quem e a responsabilizacao por isso?

sexta-feira, agosto 31, 2007

retractos do sonho 2



as vezes viajamos no tempo das coisas. conhecemos o mundo. outras vezes o mundo vem ao nosso encontro. com uma lingua diferente e uma mao rasante. nesta tarefa de descobrir pequenos mundos e porque a palhota persegue-nos. convidei a mocambique jovens criadores checos, que durante estes ultimos 4 anos temos produzido e registado varias palhotas e madeirazincos da europa central.
aqui vai um convite provisorio para ver alguns videos/filmes produzidos pelos melhores e jovens autores selecionados para o festival, o maior festival de cinema na europa central, o karlovy Vary (ver: http://www.kviff.com/ ).

quinta-feira, agosto 23, 2007

la famba bicha 9

durante esta ausencia prolongada no blog, motivada na razao de devolver a nossa profissao a practica, vou lendo os pequenos mundos que rodeiam esta profissao. Um dos mundos que rodeia esta profissao e a distancia das coisas. aprendemos que na distancia nao podemos ter desculpas. temos que estar la e trabalhar. e trabalhar e isso mesmo, negar que nao estamos distantes, que estamos perto da solucao, que estamos certos que curamos "tudo" que de nos esperam. dizem que sao coisas da profissao. quem me dera que as outras profissoes fossem assim. pelos menos vizinhas desta forma de namorar a distancia das coisas.
a cada vez que pergunto sobre a distancia das coisas, o enfermeiro sorri. e os meus ombros nao caiem, nao desfalecem, revoltam-se. e o enfermeiro segura meu ombro e sente que a minha revolta esta nas lagrimas que nao consigo segura-las. nesta distancia das coisas aprendemos que a vida esta mais cansada dela propria, que nao passamos de profissionais para devolver ,na distancia, a dignidade a dor e a qualidade a morte.
e com o tempo a distancia toma conta de nos. paramos de questionar o mundo a nossa volta. a lagrima aprende a ficar presa como o orvalho que prende-se a uma folha desmamada.e com o tempo descobrimos que a distancia constroi uma ilha e nao a terra isolada.

quarta-feira, agosto 08, 2007

a personalidade do utero 2

a barriga. dizem os outros que é sagrada. porque nasce. porque acalenta. porque esconde. porque abre portas. é nosso cartao de visitas. a barriga, redonda, quadrada, feia, bonita, carinhosa, ciumenta, catolica, budista, muculmana, é uma barriga. nao interessa o diploma, a palhota ou o mercedes. ela persegue-nos. assim como a lingua. ela so aprende nos lugares por nos habitados, a lingua dos outros, a lingua do metical, ou da convivencia social. afinal de contas é uma barriga. O antonio Gedao dizia que os sonhos comandam a vida, o einstein dizia que o conhecimento comanda a vida, aqui na minha terra é a barriga que comanda a vida.
a nossa barriga, na minha terra, diz tudo. é simbolo da nossa vivencia com o mundo. temos a barriga de dirigente, de mukherista, de pobre, de empresario, de intelectual, da vida boa, da santa, da ma vida, da falta de moral, isso mesmo. existem como nao devia de ser barrigas mais especiais, iguais a barriga da cegonha, como minha mae explicou meu nascimento. enganei-me.

terça-feira, julho 31, 2007

la famba bicha 7

Os problemas de um pais sao abordados? onde? sao discutidos ou engolidos? alguns amigos meus vao dizer que a esteira seria o melhor lugar. Porque quem tem problema senta na esteira e quem tem poder para resolver senta-se na cadeira. O problema deixa de existir quando a cadeira desaparece. Entao para os meus botoes o problema esta na cadeira. E para o meu instinto o problema esta no homem que nela senta.
Para isto nao basta o "saber". Precisa-se fazer crer que existe uma cadeira de um homem que tem solucoes. Para alguns a cadeira resolve tudo: feitico, amor negado, dinheiro, atrasos de salario, amante perigosa, bichas, falta de transporte, malaria, SIDA, Pensar direito, um infinito de resolucoes e solucoes. O poder esta na cadeira e nao no homem, uma "descoberta" perigosa que esta a dar frutos no pais.

quarta-feira, julho 25, 2007

la famba bicha 6

"O sacrifício de Tântalo: desDOADORizar as eleições (1)" ver no blog do carlos serra, diario de um sociologo
existe dinheiro responsavel, que pensa. o metical tambem pensa, tem responsabilidade. mas de uma maneira diferente. agora que este pais "virou" um palco interessante de politica internacional. sempre foi, mesmo nos tempos do alinhado e nao alinhado. agora no tempo de exemplo de sucesso tambem sofre mutacao, da mesma maneira que roma foi substituida por bruxelas, e ilha de mocambique pela lourenco marques. a mao de dar tambem muda, porque o pedinte ficou esperto e "amante" da desculpa da preguica.
ser mendigo tem sua arte, a responsabilidade de dignificar a esmola, por isso ele pede e nao arranca. e quando o mendigo muda de tactica nao pode esquecer a esmola do passado, sera sempre um referencia para calcular a esmola do outro.
a entrada dos chineses, indianos e outros parceiros economicamente forte, na logica mundial, tambem mudou a relacao e o poder da ajuda. quando existem descobertas que na esmola tambem existe rivalidade, entao a esmola tem condicoes: pedir com respeito, guadar o carro, lavar o carro,nao comprar alchool, etc.
acho que estamos perante um braco de ferro interessante, politicamente somos os pedintes mais comprometidos com a responsabilidade da esmola, mas tecnicamente somos os mais ineficientes e irresponsaveis na responsabilidade do uso da esmola. aqui os doadores querem mostrar ate que ponto sao imprescendiveis, marteketizar o capital de ajuda e influencia politico-socioeconomica, ganha nos anos pos-guerra. para os outros a unica "plataforma" possivel para travar o fenomeno do centralismo politico e o Uno-partidarismo democratico.
entao nao estamos perante uma esmola que nao pensa. na esmola esta uma mao direita que da e uma mao esquerda que exige. um catolicismo capitalista e de poder estrategico.

sexta-feira, julho 20, 2007

txonaddos e chamboaqueados no jazz da vida III

Ibrahimo. seu nome. nao foi preciso apresentar-me. ele conhece-me. nao sei donde. talvez de uma cumplicidade anonima. Ibrahimo vende bolinhos fritos. eu vendia chamussas.
Eu vendia chamussas nos anos oitenta, eu candongueiro, no socialismo cientifico. Ibrahimo, no ano dois mil e sete, ele vendedor ambulante, no capitalismo selvagem. o tempo passa e a vontade de ser crianca continua refem de um sistema que precisa de criancas. somos anonimos.
Ibrahimo e perseguido pela policia municipal, eu era perseguido pelo miliciano. somos parentes de um destino adiado. as nossas maes deviam ser irmas, nao de sangue, mas de um ventre pobre.
Ibrahimo, nao fala muito, porque as palavras sao sempre as mesma: compra bolinhos senhor. seus olhos sao negros e cansados, como o suor que banha seu rosto. vigio-o da minha janela. a bacia de bolinhos corre ao ritmo das janelas do autocarro e das vozes gritantes que chamam pelos vendedores que assaltam o autocarro.
digo ao cobrador que vou descer nesta paragem. afinal nao vais para nacala? pergunta o cobrador boca-aberto com o cliente sem palavra. resmunguei e pago uma nota de 25 MTn.
Ja na estrada chamo pelo Ibrahimo, ele corre com a bacia de bolinhos e nao com os pes. estao pesados. a bacia devia pesar uns 10 kilos para oito anos da sua idade.

assim conheci o Ibrahimo Assane.afinal somos filhos do mesmo pais, mocambique.

la famba bicha 4

o que maputo tem de extraordinario. pergunto a mim mesmo. afinal as viagens sao para isso. questionar a nossa propria certeza. descobri que maputo tem de extraordinario uma capital. para quem vive na periferia uma capital e um olho gigante. tens o melhor angulo para calcular tudo, ate a preguica dos outros. na capital somos educados que a pressa, a falta de tempo pode ser um cartao de visitas para classificar os outros de prestaveis. e o pais desenvolve-se a volta dos prestaveis. aqueles que sabem tirar partido da pressa e da falta de tempo. um recurso esgotavel, na terra de meticais.
afinal existe um mundo onde a pressa e a falta de tempo nao interessa. lugares onde existem capitais nao extraordinarias. onde a pressa e a falta de tempo nao tem prestacao possivel. uma capital de um pais honestamente diferente. onde tudo interpreta-se na noite ou no dia. os encontros nao sao feitos na agenda que categoriza a hora, mas na arvore que oferece a sombra. aqui aprende-se a esperar ate o tempo desaparecer. esperar e mais extraordinario que a pressa. na espera namora-se o mundo que nos rodeia, a capital dos outros.

quarta-feira, julho 04, 2007

la famba bicha 3

aqui volto. nao esqueci do dever de alimentar o chapa100. mas as estradas estao cheias de surpresas e visitas. ha 20 dias estou e vou viajando por Mocambique, Cabo Delgado, Nampula e Tete. aprendi a ver o pais com seus meticais. um pais que gira, ginga, empobrece, enriquece, abandonado, amparado, amado. As vezes o mundo gira tao rapido, com metros e segundos que namoram nosso espanto: os sobreviventes do metical. mas o mundo gira. feito de pequenos globos, de gente, etnia, distrito e pequenos paises de meticais faltosos. uma ilha de vontades e sonhos.

sonhos. todos sonham, alguns mais altos, outros mais rastejantes. mas sao sonhos de muitos sonos e insonias. alguns de uma cama macia, outros de um chao duro. mas porque parar de sonhar? pergunto aos meus guias. E eles tropecam na minha pergunta. para eles o sonho nao existe assim tao humano e cheio de vontade. porque sonhar quando falta tudo? perguntam. vi que as perguntas sao importantes. nao pela resposta. mas pela falta de resposta. e o mundo gira, com sonhos emprestados, alugados ou roubados, o mundo gira. pode parecer lento, porque nao ha relogio, com prazer da vida, de transformar sonhos.

no caminho. mapea-se tudo. uma arte antropologica de estimar tudo. aquelas coisas que nos fazem rir. afinal quem chora tem que saber rir. nao existe outro alento para isso. onde falta lapis nao falta um sorriso de crianca, onde falta aspirina nao falta um acenar de boa viagem. e o pais vai nascendo assim. uma gravidez constante. nascem aos mil. e a escola ensina as dezenas. nao ha recurso neste pais capaz de acompanhar e acalentar esta barriga que nasce a cada minuto. somos um pais de criancas, numa miseria de adultos: calculamos a nossa pobreza nao nos filhos que morrem, mas que nascem.

nestes caminhos somos estrangeiros da ciencia. nao ha logica para entender as coisas. elas acontecem. porque para muitos a explicacao ja esta abencoada. nao questionar faz parte do amor que embelezamos o encontro com o outro. o sexo, a vida, o dia, a noite, a religiao, o sol, o corpo, o caminhar, o dinheiro, a troca, a compra, a escrita, o conto, o romance, a poesia, o canto, a danca, servem o misterio para explicar os fenomenos que fogem a pergunta sobre a logica das coisas. as coisas existem porque tem que existir. e assim sobrevivem no tempo. amamos as coisas por elas existem e nao porque sao inventadas e sonhadas.

e desenha-se o pais numa caixa magica e seus acessorios. a caixa magica nao tem mais nada que telenovelas e sms para quebrar nossa rotina e fazer de conta que descobrimos o outro. os acessorios, sao outras naus do vasco da gama, tem rotas diferentes mas vivem a mesma cultura, descobrir o outro como mercado e produto: Mcel e coca cola. nao ha disputa possivel, com capitalismo se namora tudo, pelado ou vestido, nao interessa. e assim ama-se um pais acreditem.


sexta-feira, junho 29, 2007

la famba bicha 1

vou comecar aqui no blog a publicacao de algumas notas de discussao sobre varios pontos que ja nao consigo ficar calado sem poder reflectir sobre eles. a reflexao sera produto da minha pressa e atropelos chapacentados do registo que poderei fazer dos temas aqui abordados na imprensa e na blogsfera mocambicana. entao manos vamos la ver:
"Explicou que os casos de assassinatos de parte dos elementos da Polícia da República de Moçambique reflecte exactamente o “terrorismo” que os malfeitores têm estado a semear contra as forças da lei e ordem. Por este motivo, de acordo com o governante, a Polícia irá responder, também de forma violenta, a todos aqueles que empunham armas para o cometimento de delitos. " in noticias 29/06/07

Como podemos construir problemas assim? será que produzir solucoes interessa ao nosso governo? tenho medo que já não precisamos pensar, estudar as coisas, que inquietam nossa própria vivência e responsabilidade governativa. O que esta em causa aqui já não é a competência dos que nos governam, mas o partido politico com programa, competência e quadros para governar. Quando não mais podemos solucionar nossos próprios problemas chamamos os outros, e pior quando esses outros não tem cara. Agora resolveu-se fazer um copy and past perigoso, porque o conceito copiado põe em causa qualquer forma de pensar direito e governar com responsabilidade. esse conceito chama-se "terrorismo". ele responde e veste a mesma camisa da generalização e medializacao dos problemas mal estudados, que muitas vezes camuflam o que esta por detrás das nossas intencoes. são conceitos como estes que mal empregados só servem aos políticos e traumatizam uma sociedade. Ate agora na ordem mundial o uso deste conceito faz e fez de nos reféns de uma verdade que não existe, construída dentro de um paradigma para munir um estado de incompetentes e musculosas mentes desumanas.

O ministro Pacheco (que ate a poucos anos era um dos jovens competentes deste pais) esta a sair da estrada. e esta a entrar por uma estrada perigosa. há dois anos que o ministro ainda não produziu um estudo sobre o crime em Moçambique, a esta altura o ministro devia ter percebido que as estatísticas sobre o crime que nos são apresentadas pelo comando geral da policia não oferecem um quadro analítico para produzir politicas e estratégias de segurança publica. O desafio institucional que o ministro introduziu no seu ministério não esta a responder a dinâmicas sócio-económicas da sociedade moçambicana. o desafio institucional que devia perturbar o sono dos quadros senior do MINT não é fazer a lista das necessidades, mas sim, como produzir instrumentos que possibilitam uma visão realista do crime em moçambique:

1) identificando dinâmicas sociais especificas que possibilitam a "produção de comportamentos" anti-sociais. a policia precisa de conhecer a sociedade e os espaços onde o crime é produzido.

2) identificando comportamentos institucionais que provocam fragmentação e improviso na actuação da policia. reforçar que a actuação da policia em relação a qualquer crime facilite o desenvolvimento de sistemas internos de registo e estudo do crime, e não a cultura de passar por cima de procedimentos, leis, e "cozinhar" dados estatísticos.

3) Identificando praticas de investigação criminal que impossibilitam a simplificação no registo de crime, abertura de uma queixa, registo de denuncia, protecção da vitima.

4) Identificando factores e fenomenos culturais e sociais que determinam a demanda para os serviços da policia ( exemplos: violência domestica, racismo, conflitos étnicos, cultura de gangs, consumo abusivo de alcohol, prostituição, comportamentos de risco no verão ou inverno, porte de instrumentos contundentes, etc)

5) identificando práticas que impedem um conhecimento claro das funcoes que cada unidade policial ou instituição do MINT desempenha ( Exemplo: porque muita gente pensa que uma queixa ou denuncia só terá solução se envolver o comando da PIC e não recorrer a esquadra mais próxima. a policia de protecção civil vulgo "cinzentinhos" a exigir cartas de condução e inspeccionar aspectos técnicos de uma viatura, agente da policia comunitária como agente denunciador de criminosos e não agente mediador e facilitador na relação policia-comunidade para prevenção, denuncia e apresentação de queixa criminal, etc)

6) identificando razoes porque a estratégia de segurança publica ou intervenção da policia não é desenhado tendo em conta os constrangimentos da capacidade institucional, e não a cultura dogmática de que quanto maior for a disponibilidade de recursos e meios a policia produzira resultados imediatos, de impacto positivo na sociedade. ( para evitar reformas e intervencoes insustentáveis institucionalmente como aquelas das motorizadas, carrinhas, bicicletas, que só desacreditam a nossa policia)

7) identificando porque os constrangimentos da capacidade institucional da policia a longo e curto prazo não são incluídos no desenho da politica e estratégia de segurança publica. e porque não temos planos estratégicos e estratégia de segurança publica por província, sector por sector, especialidade.

8) identificando que aspectos e sectores da reforma institucional da MINT estão exageradamente "idealizados" ou com potenciais conflitos entre a estratégia escolhida para fazer reformas e os constrangimentos orçamentais, impostos pelo nosso orçamento geral do estado. ( para não assistirmos este teatro da fala de meios quando bem sabemos que estamos a falar de um estado organizado onde instituicoes recebem aquilo que planificam ou fazem lobbies para receber mais)

9) Identificando porque O MINT pensa que os meios circulantes são mais importantes que infra-estruturas. avaliando pela quantidade de carros e motorizadas que entraram no MINT nos últimos 15 anos não imagino quantas esquadras teriam sido reabilitadas e quantos bairros novos de moçambique teriam novas esquadras. porque investir em infra-estruturas é investimento a longo prazo ( acompanhado de um sistema de gestão e manutenção em parceira com o sector privado e comunidades locais)

10) identificando práticas inovativas de prevenção e manutenção de ordem publica. ( com a quantidade de guardas e agentes de segurança privada em varias casas e estabelecimentos comerciais , não percebo porque não há colaboração na identificação de potenciais actos criminais, activação de alertas SOS, assistência de primeiros socorros, alertas periódicas sobre comportamentos e práticas criminosas, etc)

11) identificando desafios institucionais na área jurídico-legal e cooperação interministerial. (que prioridades na reforma da justiça e leis em moçambique podem tornar a estratégia e politica de segurança publica efectiva e eficiente: o sistema prisional, o funcionamento dos tribunais, o direito criminal, os paióis e armamentos sem controle, a fragilidade das instituicoes como família, escola, controle migratório, etc)


As questões levantadas acima, são aquelas que não consigo ver elas reflectidas no discurso do nosso ministro de interior. o que esta faltar ao meu ver não é só um estudo sobre a dinâmica social que criminaliza as relacoes sociais e económicas de moçambicanos, mas a falta de capacidade das nossas instituicoes politicas em problematizar as coisas, não interessa neste momento saber que o ministro não tem meios, mas o que vai fazer com esses meios se disponíveis e como. imagino que o desafio institucional do MINT seja um bicho de sete cabeças e a sua complexidade não pode ofuscar a capacidade visionaria dos nossos governantes quando são confrontados com desafios. Esta cultura generalista de que o crime violento combate-se com uma resposta policial violenta é muito frágil porque mostra a ideia politica que temos do MINT, este ministério não é para combater criminosos como sua vocação principal mas para manter a ordem publica respeitando, a ordem jurídico-legal vigente, os deveres positivos da policia, do ministério publico, dos tribunais, respeitando e protegendo o cidadão. O ministro Pacheco tem que por os quadros do MINT e da CIPOL a produzir o crime, sob pena de assistir-mos a linchamentos a escala tsunami.

sexta-feira, junho 22, 2007

palavra d'honra a luta continua

1 - Durante duas semanas o porta-voz do Ministério da Defesa vem dizer que foram descobertos 80 engenhos explosivos, três meses após a explosão do paiol de Malhazine que vitimou mais de 100 pessoas. Segundo Mataruca o Ministério da defesa criou varias equipas para sensibilizar as populacoes e denunciar a presença de engenhos explosivos. ( fonte: http://www.rtp.pt/index.php?article=287671&visual=5).
Como diz o professor Elisio Macamo " o disco esta furado", demasiado furado. O Ministério da Defesa esta a brincar connosco, moçambicanos. Ate agora nem o chefe do estado maior, nem o chefe responsável pelo armamento vieram dizer algo sobre os aspectos técnicos ligados a explosão do paiol de Malhazine. O ministro esse resolveu sacudir o casaco, afinal não é tarefa dele guarnecer o paiol. O disco esta furado e dois menores pagaram com sua vida.
O relatório entregue ao Presidente da Republica foi falso, porque se fosse um relatório verdadeiro, o ministério da defesa teria feito um trabalho profissional e responsável para recolha dos engenhos explosivos nos bairros e assistir com perícia necessária as autoridades e as populacoes locais sobre os riscos de uma provável presença de engenhos nos bairros residenciais. Não fez.
Neste pais durante mais de 15 anos andamos a financiar e treinar sapadores. Neste pais ainda não desenvolvemos uma capacidade logística-militar para lidar com problemas nossos de defesa e segurança. O disco esta furado. é este ministério ou exercito que fiscaliza e inspecciona o processo de desminagem executado por empresas privadas? Como posso ter garantias que algum lugar deste vasto pais foi correctamente desminado? perguntar ao porta-voz Mataruca? não, eu não acredito neste porta-voz. não faz trabalho de casa e pensa que somos um bando de delinquentes e doentes mentais fugidos do hospital que o paiol rebentou. o disco esta furado.
Quando o paiol rebentou foram criadas brigadas militares, de saúde, apoio Psico-social, de logística, ministeriais, politicas, etc. Quem coordenou esta operação? como sempre vão dizer que foi o povo. então quem furou o disco? vão dizer que foi o povo. que critérios foram usados para dar por terminado o processo de recolha de engenhos explosivos? vão dizer que foi o povo.
Porque em Maputo esta a fazer frio, o engenho explodiu e matou duas crianças. o paiol explodiu porque estava muito calor. Porque o disco esta mesmo furado, eu propunha que elaborássemos um novo relatório dirigido pelo instituto nacional de meteorologia. porque as temperaturas estão a matar moçambicanos e o governo podia decretar que na previsão meteorológica obrigatoriamente anexar um boletim de quantos engenhos explosivos vão matar, com informação sobre regiões com baixa ou alta intensidade de acordo com a temperatura do dia.
2 - celebramos no dia 25 de Junho a nossa independência. Temos um presidente da Republica poeta. Este ano poderia o presidente escrever e ler o discurso a nação de uma forma ímpar. Falar de nos moçambicanos como povo de cultura, durante anos o discurso a nação foi mais sobre economia, guerra, paz, pobreza absoluta, etc. este ano merecemos uma poesia. depois do discurso do procurador da republica e outros nossos dirigentes, estou com sede de um discurso bonito, inspirador, de unidade, de amor, de romance, um discurso que possa dignificar a beleza do gurue, do monte binga, do lago niassa, da forca do Zambeze, do feitiço das quirimbas, do luar nos zincos de chamanculo, da frescura das águas de Namaacha, da musila que embeleza nossas mulheres, de tudo que uma poesia pode cantar sobre um pais. precisamos de uma nova poesia de combate e não de discursos para inglês ver. por isso senhor presidente, esta ano com todas estas desgraças de paióis, cheias, fogos, crime, terramoto, etc, merecemos uma poesia para embelezar nossa vida.
la famba bicha e pelo dia da independeia a luta continua para Mocambicanos de rovuma ao maputo.

quinta-feira, junho 21, 2007

O mundo, com duas vidas e um jovem I

I
Como jovens somos muitas vezes alertados sobre o risco do mundo exterior e não do mundo interior que corre dentro de nós. Porque a nossa socialização implica mapear o mundo a nossa volta e seus actores e não mapear o pensamento, o sentimento, a duvida, a pergunta que vive dentro de nos? Será que existe no mundo exterior realizações superiores ao mundo que gira dentro de nos? Será que o mundo exterior tem mais certezas do que o mundo interior?


II

Para responder as questões colocadas acima teríamos que analisar a importância da prioridade que o mundo exterior tem em relação ao mundo interior. E não é porque o mundo exterior seja por natureza prioritário em relação ao mundo interior na vida do adolescente e jovem. Na sociedade moçambicana de hoje, os jovens são mais falados pela sua virtude de ser jovem, de ser um grupo etário maioritário, de ser um actor económico imprescindível numa economia de consumo e competitiva, de ser um eleitor em abundância, de ser o espelho atento das transformações sócio-económicas, a cobaia da crise de certezas sociais individuais e colectivas da sociedade moçambicana e muitas outras “coisas” que o jovem é obrigado a mapear para sobreviver no mundo exterior.

III

Em suma o mundo exterior pede aos jovens uma postura de compromisso e responsabilidade. E será que o nosso mundo interior de jovens que é caracterizado por uma vontade de viver com mais intensidade os questionamentos, discernimentos, entendimentos, sonhos, não mereça a mesma prioridade para mapear o mundo?

IV

Em Moçambique a juventude sempre foi abordada como um actor social e político diferenciado, capaz de influenciar processos de transformação social, que pela sua característica estava estreitamento ligado ao engajamento politico ideológico de mapear o mundo exterior. Onde o engajamento do jovem era definido pela capacidade de participar em projectos de mudanças sociais para a construção de um homem novo (moçambicano). Era assim ate poucos anos (atrás), e hoje?

V

Hoje a construção do homem novo terá que olhar para o mundo interior do jovem, que é caracterizado por reflexões pessoais que interferem na construção de sua identidade. Onde esta identidade é resultado da relação entre seus pares e experiências individuais que resultam de um processo continuo de busca, encontros, desencontros, inseguranças, curiosidades, medos, confusões, indefinições, mudanças, crises e crescimentos, que no mundo actual tem que ter a mesma prioridade que mapear o mundo exterior. E não será esta a melhor altura para mapear o mundo interior do jovem se queremos devolver ao jovem a capacidade de ser portador de mudança e construtor do homem novo de hoje, não?

quarta-feira, junho 20, 2007

hangalakane swo sala swi tsongho hi la laku minheta

1 - ha meses que estou adiando a minha ida a Mozambique. Mas desta vez nao tenho razoes para adiar, é ja daqui ha duas semanas. Para os amigos de sempre, em Maputo vou tentar reeditar as famosas noites: o bi-mensal " Tindzava e copos" , o semanal " ameijoasjazz" e as noites de cultura do "Oasis".
2 - Como vou estar desempregado, estou a procura de ocupacao para relaxar do stress de procura de emprego, entao vou caminhar o chamanculo e explorar o chapa100.


la famba bicha

terça-feira, junho 19, 2007

e portugal profundo. ninguem calará

EU SOU LEITOR DIARIO DO blog PORTUGAL PROFUNDO"...EU SOU LEITOR DO PROFUNDO"...porque é profunda a nossa solidariedade ninguem calará a blogsfera e EU SOU DIARIO DO PORTUGAL PROFUNDO"... aqui onde o ATAQUE ÁS LIBERDADES E Á DEMOCRACIA afunda qualquer pais.

quarta-feira, junho 13, 2007

o curto-circuito. ao egidio vaz

I

Egidio! nos amamos um pais porque dele aprendemos a amar as suas maravilhas e suas surpresas. Acontece o mesmo com o curto circuito, que provavelmente provocou incendio no MINAG. Porque conhecemos o nosso amor, nao foi preciso investigar mais, a sua zanga é plena e constante. O curto circuito é parte deste amor multifacetado de patria. Por isso nao encontramos movimentacoes de pessoas estranhas no edificio, por isso trancamos as portas e deixamos os guardas sem chaves. porque o ciume impede-nos. inventamos um extintor para guardar nossas certezas de que conhecemos a zanga do nosso amor, afinal a zanga é sinonimo do amor que cega-nos . No amor, somos alertados para deixar a desconfianca de fora, por isso nao instalamos bombas de agua, porque precisamos do exercicio de balde para muscular o coracao que explode. Nao instalamos um sistema de alerta contra incendio, nao tratamos de seguro contra incendio, nao inspecionamos o sistema electrico e electronico, afinal no amor nao se pode desconfiar.

No amor a coisa mais bela é contar sobre o curto circuito da nossa paixao.se possivel conta em voz alta. Para ninguem duvidar. Todos nos invejam, porque acreditam que nosso corpo produz energia como a cahora bassa. E porque amar a patria é isso mesmo. É intenso. Com um pequeno curto circuito, alertamos os outros do fogo que corre dentro de nos, somos a auto estrada do fogo descontrolado que habita nosso estomago.

E agora ? o nosso poeta eduardo white escreveu:

Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece e seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste que
na digital matriz da suas febres
o fogo opõe-se,insubmisso,a morrer.
Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.
O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.
Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
a sua pressa.

uma mao

Uma mao

de mao
grande
de mar

uma mao

de mao
com mar
grande

uma mao

de medo
fugiu para longe
grande da vida

uma mao

de mao
onde o mar
nao mede a mao.


Uma mao

domingo, junho 10, 2007

...e o vento levou.Moolaade reencarnou.

existe luto. de muita morte. de muita gente. de um continente. e porque a morte é o comeco e o terminar de uma obra. seja ela excentrica, abismal, alegre, triste. sera sempre a arte que faz de nos homens gigantes, nascidos de uma baoba. africana.

Sembene Ousmane. cineasta, intelectual, sindicalista, antigo combatente, poeta, romancista. um continente por ele amado. e o cinema fica, na memoria de quem amou casamance. adeus Sembene Ousmane.

quarta-feira, junho 06, 2007

doi doi, o recibo e a bicha

mano salema

lendo teu texto ( ver no mocambiqueonline o texto do salema com titulo: como doi passar recibo) a solução contra a corrupção não é a alta autoridade para combate a corrupção ou o fórum anti-corrupção. os instrumentos de controle e transparencia no aparelho do estado estão la. se introduzir-mos a obrigatoriedade do recibo nos cartórios, hospitais, escolas,...resolveríamos em grande parte o negocio e dumba-nenguismo no aparelho do estado, que chamamos corrupção. veja quantos funcionarios no aparelho do estado no atendimento ao publico não estão identificados, quantas vezes vamos a uma repartição publica e não temos formularios ou fichas de requerimento? quantas vezes vamos a uma repartição publica para levantar um parecer/documento dizem-nos para passar daqui a uma semana, daqui a duas semanas, semanas não tem dias ou calendário ou horas?

então dizem que o cidadão é vitima da corrupção no aparelho do estado. não é verdade. o cidadão é vitima do mau funcionamento do parelho do estado. da falta de instrumentos de gestão eficiente, da falta de responsabilidade de funcionarios publico para com o acto burocrático, da falta de ética e inspecção no aparelho do estado, da falta de um aparelho de estado responsavel e eficiente. e não da corrupção. A palavra corrupção tem a mesma relação com o fenómeno da bicha ( diferente do fenomeno da bicha retratado pelo elisio macamo)

nos tempos idos, tinhamos que formar a bicha para comprar pão, arroz, açucar, fazer matricula, tudo. e quando o pão acabava, não era culpa do padeiro ou da padaria que não planificava e comprava trigo e lenha em quantidade suficiente . quando faltava arroz não era a GOAM que não planificava bem as nossas necessidades. a culpa era da bicha que era longa. a culpa era nossa que não acordávamos cedo para formar a bicha. então tudo que não conseguíamos ter era por culpa da bicha. ninguém se dava ao luxo de questionar o padeiro, o chefe da cooperativa, a GOAM.

assim também funciona com o aparelho do estado. tudo que la acontece justificamos como corrupção. prontos. tentar entender porque falta a obrigatoriedade do recibo, porque não passar o recibo, porque falta a identificação do funcionario, porque as pessoas tem que esperar tanto tempo para um requerimento, porque tudo tem que assinar o director, porque um documento tem que passar por varias instituicoes publicas, etc. não interessa, afinal é corrupção que faz o povo reclamar e justificar a sua pobreza.

não sei porque mas devagarinho vou chegando a conclusão que o laboratório da injustiça, do deixa-andar, desigualdade social, da exclusao social , da fome, do fogo nas instituicoes publicas, do dumba-nengue, da falta de responsabilizacao, esta nas instituicoes publicas. espero que esteja enganado ate prova contraria.

eu acho que passar recibo não doí, doí é pensar.



PS - aqui no forum teve um post sobre a questao de transporte e falta de chapas para kongolote e drive in. Nao escrevi na altura porque nao tinha tempo e continuo sem tempo. Mas este seria um case study para analisar o fenomeno da pobreza absoluta. Por exemplo: quanto tempo leva um chapa100 de museu a drive in e vice versa? Quanto tempo um cidadao espera na paragem por um chapa no drive in ou no museu? Um cidadao com uma bicicleta percorrendo o mesmo trajecto quanto tempo leva? Qual e a probabilidade de ocorrencia de acidente entre o chapa100 e o cidadao de bicicleta no mesmo trajecto? Um cidadao que trabalha no museu ( entra as 7:30 e sai as 15:30) quanto tempo levaria para chegar a casa (drive in), dar de comer as suas duas criancas, e as 17:30 apresentar-se a escola na uniao geral das cooperativas ? e imaginemos que nao é aluno na UGC, mas sim professor do curso nocturno na escola mista de chamanculo, as 18:30, existem ligacoes do chapa100 possiveis? Quanto tempo levaria?

Para mim com o problema de transporte em maputo, a probabilidade de alguem ter mais de um emprego é nula. A mobilidade de mao de obra que é um factor importante na criacao de emprego, o nosso sistema de transporte urbano nao permite isso. Deviamos calcular os custos desta falta de transporte e sua desorganizacao em maputo para o sector de servicos e industria. A probabilidade de um jovem de marracuene aceitar um emprego na costa do sol, é arripiante quando olhamos para o servico de transporte.

Sao alguns exemplos do fenomeno da bicha. Entao podiamos dizer que a culpa do meu atraso no servico é do chapa. A culpa do emprego existir so na costa do sol é do chapa. O chapa100 é a nossa culpa. Falar da pobreza e nao olhar para os fenomenos que “fabricam” essa pobreza é pensar com umbigo e nao cabeca.

quarta-feira, maio 30, 2007

tio patinhas e o umbigo

Estes ano parece um ano que promete. Devia dizer que prometeu: o distrito como pólo de desenvolvimento, o jovem no distrito, novos reitores nas universidades publicas, o combate a indisciplina no IMAP e internatos, encerramento da clínica privada no HCM, a crise de medicamentos, o informe do PGR, o paiol, o crime violento, os 7 biliões, a morte do cantor jeremias, as cheias no centro, as nossas florestas, o incêndio na agricultura, o policiamento comunitário, a CNE e a sociedade civil, Eleições na FMF, a presidencia aberta, o recenseamento geral da população, recenseamento eleitoral, eleições provinciais, e muitos outros eventos sociais, que deviam merecer destaque.

Com todos estes eventos manos é impossível não estar de boca aberta. Tudo corre e acontece, a nossa vida se tornou uma Lurdes mutola, e mais: somos gigantes. A nossa vida é quantificada com segundos e centímetros que podemos viver e mapear o mundo a nossa volta. O mundo de querer perceber as coisas não interessa, é perca de tempo. A nossa vida deve só registar e mapear a meta. Uma vida a Lurdes mutola. Somos uma nação campea, não interessa o campeonato ou a medalha, interessa cortar a meta, ser primeiro em tudo.

E tudo que não conseguimos mapear fica para os outros. Mas esses outros não existem, é nossa imaginacao. O tio patinhas que promovemos. O tio patinhas que reproduz-se nos quadradinhos que não podemos ler. Cada quadradinho é um tio patinhas diferente, mais rico, mais pobre, mais trabalhador, mais preguicoso, mais cientista, mais propagandista, mais ambulância, mais burro, mais mukherista, mais burocrata, mais pensionista, mais dumba nengueiro. Mas é o tio patinhas. Não precisamos questionar.

Porque hoje ser tio patinhas é nossa meta? Viver mais em quadradinhos e ser rico? Porque?

Então somos um pais de segundos e centímetros? Não somos. Não foram os segundos e os centímetros que fizeram o tio patinhas ser nossa imaginacao. Mas nossa mania de olhar só para metas. O que faz a lurdes mutola campea, não é a meta, ou o campeonato. Mas o conjunto de coisas pequenas que precisamos de aprender: técnica e estratégia para correr. São pequenas porque questionam a pergunta : como correr bem e chegar a meta. E não a nossa mania que temos. Correr só por correr, porque a nossa solução é cortar a meta, cortamos tudo. Então somos um pais de corta-matos para cortar a meta. Desenvolver uma técnica e estrategia para correr bem e cortar a meta não interessa a nos mocambicanos. Por isso a nossa meta é o tio patinhas: ser rico e viver em quadradinhos.

O tio patinhas na nossa imaginacao é perigoso. Porque a riqueza do tio patinhas não é para viver com a riqueza social, mas para satisfazer um ego individual. Um ego que enche quadradinhos e não uma pagina. Um ego que para o satisfazer temos que desregrar tudo, negar pensar. O mais importante é nadar no dinheiro em nelspruit e não investir naquilo que legitima a tua riqueza: a sociedade.

La famba bicha


PS – Este rumor ou teoria de conspiração já é muito velho em mocambique. Agora com o fogo no Ministério da agricultura voltou a merecer destaque na imprensa local: que o incêndio foi um acto de sabotagem. Como o crime violento nos bairros de maputo, justifica-se como um acto de sabotagem ao governo actual. Isto é sinonimo de pensar com umbigo e não com a cabeça. Interpretar estes fenómenos como acto de sabotagem é perigoso. Sabotagem é um termo usado em técnica de guerrilha e subversao. Isto significa que indirectamente estamos a alimentar um acto barbaro de quem sabota e quem é sabotado. E estamos a dar asas e legitimidade ao estado para usar meios violentos para combater sabotadores que não tem cara. Isto significa que crime sem cara promove o excesso de zelo das autoridades no cidadão inocente. Este pais já teve exemplos disso, e o assassinato de suspeitos no costa do sol é exemplo vivo disso. Sabotagem e legitimar o uso de forcas legais de reacção contra crime fora dos espaços legais e democráticos estabelecidos em mocambique. Mas do que sabotagem estamos perante um acto criminal que requer perícia da policia, trabalho aturado da procuradoria e dos tribunais, e por ultimo resolver de uma vez por todas este conflito entre burocrata e políticos.